Um presidente sem presidência

          “ACABOU, você não é presidente mais!”. Foi com essa frase que um haitiano abordou Jair Bolsonaro na frente do Palácio da Alvorada, no dia 17 de março, um dia depois de o presidente ter incentivado concentrações de pessoas e manifestações públicas contra o Congresso e o STF, e ter, ele próprio, cumprimentado seus apoiadores, contrariando as recomendações médicas de distanciamento social.

         A verdade é que o haitiano foi profético: o governo (ou desgoverno) de Jair Bolsonaro derreteu – ou derreteu-se. A maior e mais competente oposição a Jair Bolsonaro é o próprio Jair Bolsonaro.

             É notório que os militares que ocupam ministérios localizados no terceiro andar do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete do presidente, assumiram de fato a presidência. Uma junta militar, liderada pelo general Braga Netto – que já é chamado de “presidente operacional” -, governa o país desde que o presidente eleito afundou de vez na crise do coronavírus.

       Isolado, desmoralizado e finalmente descartado, Bolsonaro de fato “acabou”. A imprensa e os analistas já o consideram uma “rainha da Inglaterra”: reina mas não governa. E faz tempo. Sabotado por si mesmo, por sua incompetência e malignidade, o presidente eleito nunca desceu do palanque, nunca governou.

            Desde o início de seu tumultuado governo, Jair Bolsonaro tem sido “tutelado” por militares, pelo Congresso e pelo STF. Quando não, é “guiado” por seus filhos que instalaram no Planalto o chamado “gabinete do ódio”. São incontáveis as vezes em que Bolsonaro tomou uma decisão e teve de voltar atrás.

          Anteontem, em mais um de seus desvarios, tentou demitir o ministro da Saúde Henrique Mandetta e não conseguiu. Fontes seguras informam que os militares – que hoje compõem o que eles mesmos chamam de Estado-Maior do Planalto – decidiram que Mandetta fica.

              Jair Bolsonaro, depois de bravatear publicamente dizendo que “usaria a caneta” para demitir o ministro da Saúde, teve de voltar atrás – guardou a caneta. Saiu desse episódio ainda menor do que entrou. Se o chefe do governo, há muito, já havia perdido a compostura, perdeu agora também a autoridade.

              Até mesmo empresas da comunicação, como Twitter, Facebook e Instagram, se deram o direito de desautorizar o presidente da República – excluíram várias de suas postagens. Vexame. E pior: as postagens foram apagadas porque o presidente do Brasil estava “promovendo desinformação”, quer dizer, mentindo; justamente numa hora de crise sanitária em que o país mais precisa de informações claras e, claro, verdadeiras.

               O quadro se completa com a “desobediência” de governadores e prefeitos que, em meio à pandemia do coronavírus,  não acatam mais as ordens do presidente. Puseram-no de lado. O que revela também o esgarçamento do pacto federativo: a população, aturdida, não sabe a quem obedecer.

              Nesta hora, para recompor a autoridade, definir as competências e salvar o pacto federativo era preciso que o país tivesse um ministro da Justiça à altura desses desafios. Mas, infelizmente, também nesse setor o Brasil está órfão. O ministro da Justiça afundou com a crise – sumiu.

                Moral da história: o presidente da República nem sequer demite ou nomeia seus ministros; e os que nomeou não atuam – são disfuncionais. A cadeira de presidente da República continua vaga. Jair Bolsonaro nunca esteve à altura dela e, portanto, nunca soube nem saberá ocupá-la; quando tentou, foi um desastre.

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