Comparsa das crises

           O BRASIL está vivendo neste momento três grandes crises: uma crise sanitária (que assola o planeta); uma crise econômica (que ameaça desaguar numa recessão mundial); e uma crise de governabilidade, esta, especificamente brasileira, gerada exatamente por aquele que deveria evitar e administrar crises – o presidente da República.

             Ocorre que o presidente brasileiro não tem a menor condição de liderar o país nem de superar crise alguma. Pois ele não apenas é parte da crise como só consegue sobreviver politicamente em meio às crises.

             Comecemos pela sanitária. Quando o país mais precisava de informações seguras, prudência e tomada de decisões diante da pandemia de coronavírus, Jair Bolsonaro não teve sequer a capacidade (ou hombridade) de esclarecer à nação se ele próprio estava ou não contaminado pelo vírus. Escondeu seu exame, limitou-se a dizer que ninguém tinha nada a ver com isso.

             Quando o país mais precisava de liderança e união em torno de um planejamento comum de combate à epidemia, contrariando a ciência, as autoridades sanitárias e as políticas internacionais de isolamento social, Jair Bolsonaro cede à pressão de seus seguidores/financiadores e opta pelo fim da quarentena. Exorta as pessoas a voltarem às ruas e ao trabalho, rachando ainda mais um país à beira do abismo. (Já o estão chamando de “Capitão Corona”.)

             A crise econômica que atinge o mundo desde 2008 só tem se agravado no governo do capitão. Para enfrentar a recessão, Jair Bolsonaro adota medidas recessivas. As políticas monetaristas de Paulo Guedes não têm a menor condição de alavancar o crescimento econômico; ao contrário, impedem-no.

          Sim, o ministro Paulo Guedes adota a covarde “política do menos”: menos Estado (privatizações), menos investimento público (corte de gastos), menos dinheiro na mão do consumidor (corte de benefícios sociais e crédito popular), menos arrecadação… e, consequentemente, mais crise.

         Não bastassem todos esses problemas, o capitão aprofunda agora uma crise de governabilidade que vinha se desenhando desde o início tresloucado de seu governo. Está completamente isolado. Há pouco dias, quando já se prenunciava a crise do coronavírus, estimulou um protesto público contra o Congresso e o STF, isolando-se dos demais poderes.

        Agora, isola-se também em relação aos governadores e prefeitos, acusando-os de promoverem a quebra da economia e a fome no país. Não tem fim a irresponsabilidade desse indivíduo! Os governadores responderam dizendo que não seguirão as diretrizes indicadas pelo ocupante da presidência, ameaçando até com um “governo paralelo” de fato, à revelia do presidente.

             Até mesmo dentro de seu governo Jair Bolsonaro começa a isolar-se. Os dois ministros mais importantes nesta hora, um que trata da crise econômica e outro que trata da crise sanitária – Paulo Guedes e Mandetta – já se posicionaram publicamente contra as posições do presidente em relação ao isolamento social para combater a pandemia.

               Os militares, que dão sustentação armada e política ao (des)governo de Bolsonaro, salvo uma ou outra voz tão alucinada quanto a dele, também não aderiram às maluquices que o capitão propõe para enfrentar a crise sanitária; estão como a raposa na moita, só contemplando as peripécias do presidente bufão que trata uma pandemia de proporções globais como simples “gripezinha”.

           Por fim, Bolsonaro afasta-se também de seu público eleitor que já começa a se dar conta do equívoco que foi pôr na presidência da República um político ignorante e desmiolado. Os eleitores circunstanciais, que votaram nele apenas para votar contra o PT, já estão recuando; Bolsonaro ficará somente com seu eleitorado da extrema-direita – tão lisérgico quanto ele.

         Em resumo, ninguém mais ignora – nem à direita nem à esquerda – que Jair Bolsonaro foi um erro histórico. Lida com as crises atuais de olho em 2022; aposta no “quanto pior, melhor” para impor seu projeto autoritário. O capitão foi expulso do Exército porque queria explodir os quartéis; se não for expulso da presidência da República, poderá, enfim, dar vazão a seus instintos incendiários e explodir o Brasil.

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