A fantasia do coronavírus

            A DOENÇA provocada pelo novo coronavírus, COVID-19, pode ser grave, pode ser mais ou menos grave, e pode não ser nada – só um resfriado. Às vezes chega a ser assintomática. Dependendo da idade e das condições pessoais de cada indivíduo (comorbidade, imunidade baixa, enfermidade ocasional ou crônica etc.) a doença pode até matar – mas a letalidade do vírus, em si, é baixa.

           A pandemia do vírus, idem. Pode ser que evolua para uma contaminação geral, ou da maioria da população. Pode ser que a grande maioria não se contamine. E pode ser também que, dentro de dois ou três meses, ninguém se lembre mais do temível coronavírus, senão apenas como mais um vírus causador de gripe comum.

            Os impactos da pandemia também são incertos. Pode ser que haja um desastroso efeito na atividade econômica. Pode ser que haja escassez de bens e até de remédios e alimentos. Pode ser que o impacto no sistema de saúde pública seja devastador (como na Itália). E pode ser que não ocorra nada disso.

           Tudo pode ser. Por isso mesmo, o momento atual exige cautela – nem pânico nem negligência.

               Recomendada pela Organização Mundial de Saúde, a primeira medida que muitos governos estão tomando é o “afastamento social”, fechando fronteiras, desestimulando eventos e aglomerações, bem como a circulação intensa das pessoas, com o objetivo de interromper a disseminação do vírus até que o número de infecções perca força naturalmente.

        O governo brasileiro, por meio de seu amalucado presidente, faz o contrário: desdenha do coronavírus e estimula, pelo exemplo pessoal, a aglomeração de pessoas, dizendo ainda que a pandemia do novo vírus é uma “fantasia criada pela grande mídia”. O capitão abandonou o barco e foi às ruas neste domingo para participar dos protestos contra o STF e o Congresso Nacional, apoiando os que pedem ditadura militar.

          Ou seja, além de dar um péssimo exemplo em matéria de saúde pública, incentivando comportamentos de risco que podem acelerar a disseminação do coronavírus, Bolsonaro se reúne na rua para atacar levianamente as instituições democráticas. Numa tacada só, ameaça nossa saúde e a saúde da nossa democracia. Não há outro adjetivo para qualificar as condutas desse infeliz: irresponsável.

            O presidente da República já deu inúmeras (e suficientes) mostras de que não tem aptidão para exercer o cargo que ocupa, e tampouco teria qualquer capacidade de liderança para enfrentar uma crise de saúde pública como essa que se avizinha. (É um homem tão sem sorte, aziago e agourento, que foi recentemente aos Estados Unidos e trouxe o coronavírus no avião presidencial.)

               Nesta hora difícil, em que as lideranças do país precisam mostrar seriedade, tomar decisões e dar exemplos, o presidente Bolsonaro não faz uma coisa nem outra; faz apenas o que sabe: confundir.

           Durante a semana que se encerrou, o filho do presidente disse a um órgão de imprensa (Fox News) que o teste para coronavírus de seu pai havia dado positivo. No dia seguinte (ou no mesmo dia) o troca-tintas desmentiu a informação, dizendo que o resultado do exame do pai dera negativo. O que pretendem com essa mentirada?

            Parece que o objetivo é mesmo manter a população em permanente estado de incerteza e perplexidade. Apreensiva. Esse povo enrolado que tomou conta do Palácio do Planalto não sabe viver de outro jeito senão embromando, atazanando. Fazem da mentira e da instabilidade maneiras de manter a sociedade hesitante, atrapalhada, sem ação.

             Espera-se que neste momento de incerteza o ministro da Saúde, ao contrário de seu chefe, mostre algum equilíbrio, competência e senso de responsabilidade. Porque o presidente da República, esse não tem conserto: já deu sinais de que vai continuar com seus delírios e fantasias, apoiado nas ruas por um magote de neopolitizados totalmente sem noção.

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Uma resposta para A fantasia do coronavírus

  1. Concordo plenamente contigo. É uma irresponsabilidade tamanha de um Presidente que vai completamente contra o que o corpo técnico do Ministério da Saúde diz. Inclusive, no meio de tanta gente, não sei como o Mandetta foi parar lá. As entrevistas que vem dando o Ministro vem agindo com sobriedade e seriedade com assunto. Algo que o seu Chefe não vem fazendo. Não por menos, fiz também um artigo no meu site, se quiser dar uma visitada e se inscrever, estarei agradecido desde já. https://guarientoportal.com/2020/03/16/irresponsabilidade-jair-bolsonaro/

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