Contra a democracia?

            DIZEM que a democracia – no Brasil e no mundo – está em perigo. E perigo de morte. Especialistas afirmam que há um profundo desencanto com a democracia liberal representativa, e que, portanto, o povo – aqui e alhures – tem buscado saídas autocráticas para os seus problemas políticos, econômicos e sociais, preferindo eleger candidatos autoritários, messiânicos, populistas… Será possível?

           Ninguém sabe direito por que isso está acontecendo; por quais motivos o povo haveria de estar contra a democracia e as liberdades liberais que dela decorrem? É um mistério. A única coisa que se sabe é que, realmente, estamos vivendo um momento de populismo iliberal, autoritário; resta saber – diz o pesquisador Yascha Mounk – se é só um momento ou se é uma era.

            Na Europa – mesmo em democracias consolidadas como as da França, Alemanha, Áustria e Itália – cresce o desempenho eleitoral da extrema-direita. Na América, os exemplos mais fulgurantes são as eleições de Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

          Podem-se apontar vários motivos para essa insólita rejeição à democracia. Por exemplo: a crescente desigualdade socioeconômica no capitalismo em sua fase financeirizada; o controle da política e da democracia pelos poderosos; a financeirização do sistema político burguês e a consequente corrupção estrutural desse sistema; o distanciamento entre os partidos políticos e o eleitorado.

               Tudo isso são causas de desgaste da democracia. Mas será que essas causas seriam suficientes para fazer com que o povo preferisse soluções autoritárias, antidemocráticas e até neofascistas como forma de organização social e política? Creio que não; creio que seria preciso algo mais forte para levar o povo a descartar a democracia liberal e seus direitos.

           Assim, permito-me avançar a hipótese de que esse “algo mais”, esse motivo mais forte, que põe o povo contra a democracia, é o MEDO – um dos quatro gigantes da alma, segundo Mira y Lopes.

         Vejam que a extrema-direita está crescendo na Europa, e triunfou nos Estados Unidos, porque ofereceu soluções autoritárias (endurecimento das leis, policiamento de fronteiras, suspensão de liberdades etc.), simplistas e populistas, para resolver o complexo problema da imigração e do terrorismo, sobretudo islâmico.

            Ou seja, tanto europeus quanto norte-americanos têm votado na extrema-direita por medo… Medo de que os imigrantes tirem seus empregos e que os muçulmanos ponham em risco a segurança física da população. Aliás, foram exatamente esses medos que levaram os britânicos a sair da União Europeia (Brexit), pois absorveram a ideia (falsa) de que a UE acolhia e gastava muito dinheiro com os imigrantes.

          A extrema-direita, no mundo rico, soube “capitalizar” eleitoralmente essas diversas manifestações do medo, estimulando até a intolerância contra imigrantes e muçulmanos. E o fez com soluções simplórias, irreais, claramente populistas, como foi o caso do muro que Trump prometia construir na fronteira dos EUA com o México; ou do discurso raso de Jean-Marie Le Pen dizendo aos franceses que “a França é você”.

            Realmente, é por medo que o povo tem preferido uma “democracia sem direitos”, na crença ingênua de que o fechamento do regime democrático, a restrição aos direitos liberais, sob a liderança de um governante forte (autoritário), fará com que as coisas, de alguma forma (mágica), melhorem no futuro.

            No Brasil, o medo manipulado eleitoralmente pela extrema-direita tem sido em relação aos pobres, e, sobretudo, o temor de que as classes médias percam seu status e poder aquisitivo. Esses medos provocaram a ascensão de políticos ultraconservadores e autoritários, que até ontem não tinham nenhuma expressão política ou eleitoral, como é o caso do próprio Bolsonaro – antes de se candidatar à Presidência da República candidatou-se à presidência da Câmara dos Deputados e teve apenas quatro votos.

           É angustiante ver que aqui também o povo brasileiro escolheu nas urnas a saída mais autoritária, preferindo uma democracia iliberal, sem direitos, em nome de uma melhora incerta, num futuro igualmente incerto – notem como muitos trabalhadores apoiaram as reformas trabalhista e da Previdência, contra seus próprios direitos e interesses, imaginando que elas seriam para o seu próprio bem – no futuro.

             Resumindo: a democracia liberal está mesmo correndo risco de vida (ou de morte). E o mais irônico é que esse risco vem das urnas, ou seja, da própria vontade do povo. O grande desafio no momento é reverter isso. Essa é a tarefa dos progressistas e democratas, estejam eles à esquerda, ao centro ou à direita – porém, longe (bem longe) da “nova direita”, radical, ultraconservadora e simpatizante do fascismo.

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