República do erro

             SIM, é de propósito, Bolsonaro faz questão de errar: mantém no Meio Ambiente um condenado pela Justiça por infração ambiental; no Turismo, um titular indiciado pela polícia; para presidir a Fundação Palmares, nomeia um negro racista; nas áreas técnicas da educação, em vez de pedagogos, nomeia militares; como titular da Educação, põe um homem que não escreve três linhas sem erro de português…

             E tem mais: para chefiar a Secom, órgão que distribui o dinheiro do governo às tevês, bota um homem que tem negócios privados com as tevês; para a embaixada nos Estados Unidos, indica o próprio filho, dizendo que quer mesmo beneficiar seu rebento; para presidir a Funarte, põe um homem que diz que “rock leva ao aborto e ao satanismo”; na Secretaria de Cultura, havia nomeado um nazista.

             E muito mais. Mas arrematemos: Bolsonaro põe no órgão que tem por objetivo aperfeiçoar o pessoal que faz ciência (Capes) um homem que… rejeita a ciência: o ex-reitor do Mackenzie é adepto do tal design inteligente, variação do criacionismo, que nega a teoria da evolução e a seleção natural das espécies – ou seja, troca a ciência que se fez até agora pela crendice… Tudo às avessas.

            E é só para contrariar mesmo; aquela justificativa de que os nomeados são técnicos acima das ideologias, como já se percebeu (e já se sabia), é pura lorota. Mas qual seria, então, o objetivo dessas (e outras) nomeações estapafúrdias? Há uma mensagem muito clara nisso tudo: Bolsonaro quer sinalizar que ele governa acima de tudo e de todos: do Congresso, da Justiça, da lei, da opinião pública e… do bom senso.

           O presidente quer deixar cada vez mais claro que quem manda é ele. Que não deve contas a ninguém; que é soberano. Põe e dispõe. E por incrível que pareça, é justamente esse seu lado errático, irracional, que encanta o bolsonarismo e boa parte dos incautos de sempre – que acreditam em qualquer coisa.

            Ao agir assim, contra tudo o que é razoável, Bolsonaro quer passar três mensagens: primeiro, é um político independente, faz o que acha que deve fazer, sem Congresso, sem partido, sem nada; segundo, está mudando o país, porque está fazendo coisas que nunca se fizeram, e de uma maneira que ninguém nunca ousou nem ousaria fazer; terceiro, por isso mesmo, é um governante antissistema, antitudo.

           Além dessas, há uma mensagem mais remota, a saber: com esse estilo e com todas essas medidas inusuais e inusitadas que toma, Bolsonaro sinaliza que pode fazer qualquer coisa – até mesmo, se preciso for, fechar o Congresso e suspender direitos constitucionais, instalando de vez o regime autoritário que ele, de fato, pretende instalar no futuro.

                 Para tanto, já infiltrou militares em todas as áreas da administração federal. Está militarizando as escolas. Na reforma da Previdência, manteve as aposentadorias especiais dos militares. Ou seja, trouxe novamente os militares para o primeiro plano da política. Ele próprio e seu vice são oriundos da caserna, ressuscitam, portanto, os tempos da República da Espada e da ditadura militar pós 64.

            Tal como hoje, nossa Primeira República foi comandada por uma dobradinha de militares: marechal Deodoro da Fonseca na presidência, e Floriano Peixoto de vice. Este, ante a renúncia do primeiro, assumiria logo o comando da nação, com poderes ditatoriais.  Como se vê, a República brasileira já nasceu de um modo errado: antirrepublicana e autoritária – é bem capaz que esses vícios estejam mesmo na raiz, no DNA, do nosso regime republicano.

            Vejam o Brasil de hoje. Há sinais evidentes de que estamos retomando o caminho errático do autoritarismo. E não há sinais de que a elite brasileira, o mercado ou a mídia burguesa estejam descontentes com esse rumo – pelo menos por enquanto. Desde que Bolsonaro mantenha sua agenda econômica neoliberal, pode cometer os erros e fazer as besteiras que quiser – terá sempre o respaldo dos poderosos.

               A mídia corporativa (aí incluída, obviamente, a Rede Globo) está descontente com a política autoritária de Bolsonaro, com o fundamentalismo religioso de seu governo e a mediocridade de muitos de seus integrantes, mas não quer derrubar o capitão, pois, naquilo que interessa, a saber, na economia, mídia e Bolsonaro estão juntos, de braços dados: privatizações, restrições a direitos trabalhistas, corte de programas sociais para garantir o superávit primário, reforma da Previdência etc. etc. etc.

              Quem acha que a Rede Globo quer derrubar o Bolsonaro ainda não entendeu nada. Precisa começar lá a trás. Enxergar que foi exatamente esse grupo de mídia, aliado a setores do Judiciário e do Ministério Público, quem aplainou o caminho de Bolsonaro até o Planalto, retirando desse caminho o maior obstáculo: Lula. Que durante as eleições ficou preso e incomunicável numa solitária, proibido até de dar entrevistas, que dirá fazer campanha.

           Pois é, assim nasceu, assim caminha a nossa República – errática. Bolsonaro nada mais é do que a imagem e o produto dessa República que nasceu de maneira errada e insiste, persiste no erro. A tal ponto de o atual presidente adotar a erronia como política, deliberadamente, para testar os limites da democracia e golpeá-la mais adiante, quando ela já estiver bem frágil, exangue, irreconhecível.

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