O Oscar da boçalidade

     NUMA palestra, o ex-jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia propôs, hipoteticamente, que sua plateia imaginasse a troca da população brasileira pela do Japão. Em seguida, arrematou dizendo que os japoneses, aqui no Brasil, fariam do país uma grande potência mundial, em apenas 10 anos; enquanto que os brasileiros, lá no Japão, seriam incapazes de fazer o mesmo.

              Podemos concluir, portanto, que o problema do Brasil é o povo brasileiro. Que esse jornalista diga tamanha boçalidade, é de se esperar. Afinal o que se espera de um ex-porta- voz da ditadura (integrou o governo de João Figueiredo) e ex-empregado de um monopólio de televisão golpista (que apoiou os golpes de 64 e 2016) comprometido e financiado pelo capital estrangeiro?

             Enfim, boçalidade e complexo de vira-lata é só o que se pode esperar mesmo de um indivíduo que serviu a ditadores e agora serve às elites econômicas – internas e externas. É óbvio que um serviçal desses tem desprezo pelo povo, ao ponto de ironizá-lo publicamente e ainda ser aplaudido pelos que despreza.

              Mas, que o presidente da República, em seu tuíter, tenha compartilhado a opinião, a boçalidade e o vira-latismo desse jornalista lambe-botas, patranheiro e elitista, aí já é demais.

               Ao referendar o raciocínio do ex-global, compartilhando trecho de sua miserável palestra, o presidente brasileiro não está dizendo nada mais, nada menos, que seu povo – inclusive o que o elegeu – é incapaz, incompetente, burro e inferior. Não posso imaginar uma agressão mais estúpida da parte de um presidente da República – que ainda se diz patriota.

             Enquanto isso, o responsável pela Secretaria de Comunicação Fábio Wajngarten (aquele que distribui o dinheiro do Planalto às tevês e depois recebe dinheiro das mesmas tevês em sua empresa particular), vai também ao tuíter (malsinado tuíter!) para dizer que a cineasta brasileira Petra Costa, diretora do filme Democracia em vertigem, indicado ao Oscar deste ano, é uma “militante anti-Brasil”.

             O presidente que detona o povo brasileiro aqui dentro, é um defensor de sua pátria; já a cineasta que divulga o talento brasileiro lá fora, é uma militante mentirosa, inimiga de sua própria gente. É óbvio que tem qualquer coisa – ou muita coisa – de podre nessa lógica!

          Para arrematar, outro global, locutor de Big Brother e biógrafo subserviente do magnata Roberto Marinho, o jornalista Pedro Bial, também achou de esculhambar o documentário da cineasta mineira Petra Costa, dizendo que o filme é “insuportável”, simples “peça de propaganda petista”.

            O medo dessa gente, lambe-botas e vira-latas, é que fique cada vez mais explícito o golpe dado pelas elites em 2016, que derrubou Dilma Rousseff e levou Lula à prisão. O pavor desses tagarelas da mídia golpista é que o mundo venha a saber, finalmente, que Dilma fora derrubada sem ter praticado crime nenhum, e que Lula fora preso pela prática de “atos indeterminados”.

            É pouco provável que o jornalista Alexandre Garcia, sendo japonês, viesse a ironizar seus compatriotas como fez com os brasileiros, em sua própria terra. É altamente improvável que o chefe de Estado do Japão admitisse tamanho desprezo por seu povo, como fez o presidente brasileiro; e é obviamente impossível que o Japão viesse a ser a potência que é se lá houvesse uma mídia e uma elite mesquinhas e entreguistas como as que há por aqui.

       As histórias do Japão e do Brasil são coisas incomparáveis; só uma mente despreparada, ou pérfida, para fazer esse tipo de comparação – tão incabível quanto aleivosa. Coisa que só faz alimentar a humilhação e o complexo de vira-lata que o nosso país, um dia colonizado e escravista, precisa superar urgentemente.

               E uma estatueta concedida pela Academia de Cinema, tal como a Jules Rimet que levantamos pela primeira vez em 1958, certamente que ajudaria a erguer a tão rebaixada autoestima dos brasileiros. Mas, pelo jeito, as elites e seus ventríloquos não querem; seria muito desaforo para o ego inflado de quem baba ovo diante das potências estrangeiras e se considera brasileiro apenas por acaso – tem que dar um Oscar de boçalidade para essa gente…

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