Fascismo desejado

             HÁ um tempo em que as pessoas querem o fascismo. Não é um descuido histórico, simples desconhecimento da história, ou alienação política: é um desejo mesmo. Querem e pronto, é deliberado; ninguém as convence do contrário. Por um conjunto de fatores, mais ou menos identificáveis, irrompe a opção coletiva pelo fascismo – é isso o que alguns especialistas andam dizendo sobre o momento atual.

             E dizem mais: hoje, estaríamos vivendo um momento desses – no Brasil e em boa parte do mundo democrático. Uma como que “pulsão autoritária”, um desejo irracional de destruição das instituições democráticas. Assim como o ser humano tem “pulsões de morte” – portanto, destrutivas e até autodestrutivas – poderia ter também “pulsões autoritárias” – desejo de destruição das instituições que estruturam a democracia.

          No Brasil, por exemplo, é sintomático o tanto que se vê de grupos (e até gente pacífica, aparentemente sensata) querendo fechar o Parlamento, acabar com os tribunais, cancelar os partidos políticos, atacar a universidade e a cultura… E tudo isso sem terem a menor ideia do que pôr no lugar das instituições que querem destruir – é a destruição pela destruição, simplesmente.

             É alarmante, sobretudo depois da eleição de Bolsonaro, o quanto se alastrou no país o discurso fascistoide dos que acham que “bandido bom é bandido morto”; que as instituições públicas são corruptas ou cabides de emprego; que a Justiça é frouxa e protege bandidos; que o Estado é a fonte de todos os males; que os pobres são culpados pela pobreza; que proteção às minorias vulneráveis é privilégio; que no Brasil há muitos direitos e poucos deveres…

             Alguns, totalmente sem rumo, falam na “volta dos militares”. Mas a maioria ataca as instituições democráticas esperando uma solução mágica, que venha dos céus, algo sobre-humano, superior e perfeito, enfim, algo que não sabem bem o que seria nem de onde viria. Uma solução mirabolante, messiânica, personalista, que pudesse assegurar uma ordem perfeita na família, na pátria, no mundo…

           Os estudiosos têm atribuído essa repentina revolta contra a democracia ao fracasso ou insuficiência da democracia liberal representativa, que não foi capaz de atender às expectativas populares (sobretudo da classe média) de bem-estar e status socioeconômico. Notemos que, no mundo todo – e também no Brasil – as revoltas antidemocráticas têm sido de fato lideradas pela elite e pela classe média.

          Às vezes há também alguma ressonância dessa insatisfação nas classes subalternas, mas a inciativa, a liderança do processo de revolta tem sido das elites, das classes médias altas e das camadas efetivamente médias – que se espelham e tendem a atender ao apelo dos de cima, com quem pretende equiparar-se.

        A esse fator – fracasso ou insuficiência da democracia representativa – talvez se pudesse somar um outro: a crise econômica mundial que teve início em 2008, simbolizada na quebra do banco Lehman Brothers (ou crise dos subprimes) nos EUA, que vem ameaçando privilégios e status das classes médias em toda parte, pois trata-se de uma das maiores crises do capitalismo global.

           Isso tudo – o desencanto com a política e as ameaças da economia – insuflado pela percepção da corrupção, pode estar por trás da distopia, e do desejo autoritário, que pretende destruir a velha ordem democrática, nem que seja na marra. Nem que seja para mergulhar no fascismo. (É por demais sintomático que nos últimos dez anos a busca pelo termo “distopia” aumentou mais de dez vezes na internet, e 2018 foi o auge dessa busca, segundo o Google Trends.)

          Pois bem, em meio a esse quadro creio que se possa acrescentar um terceiro fator distópico, igualmente poderoso, que tem contribuído, talvez decisivamente, para as “pulsões autoritárias”, ou o desejo de soluções políticas messiânicas e fascistas: o domínio do ambiente digital pela extrema-direita, que investiu milhões e milhões de dólares na chamada tecnopolítica.

              O objetivo desses grupos milionários extremistas, onde despontam os nomes de Robert Mercer e Steve Bannon, é acabar com o que chamam de “velha política”; atacar as elites que ainda acreditam e defendem a “velha democracia”; arrasar o “velho” pensamento crítico (de esquerda) pela imposição do conservadorismo moral e político; aniquilar o “velho” Estado, abrindo caminho para o “novo”, a saber, o esquema de poder supraestatal das grandes corporações privadas, sobretudo os monopólios da informação.

            Em resumo, a distopia do presente, o desejo autoritário e fascista, podem ter suas raízes no real desencanto com a democracia e na nova crise econômico-financeira do capitalismo, mas é uma distopia, uma pulsão autoritária, em grande parte manipulada pelos novos senhores do capitalismo pós-democrático, pelos arautos do pensamento único e mensageiros das sociedades totalitárias, que invadiram a internet, os corações e as mentes.

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