Trocando tudo sem trocar nada

            A ATRIZ Regina Duarte, que assumiu o posto do neonazista Roberto Alvim na Secretaria de Cultura, trocou o título de “namoradinha do Brasil” pelo de “namoradinha de metade do Brasil”. No país da polarização, trocou o todo pela parte, a unanimidade pela discrepância, o certo pelo duvidoso.

           E já começou trocando até os santos: foi comemorar no Twitter o dia de São Sebastião – padroeiro dos cariocas – e postou no lugar dele a imagem de Santo Expedido, que dizem ser o santo das causas impossíveis. Seria um ato-falho do inconsciente dela?, Regina Duarte sabe que é impossível defender a cultura num governo que destrói a cultura?

                 Na mesma tuitada a atriz disse que é CCC – Conservadora, Católica e Cristã. Mais uma troca: embarca no novo Comando de Caça aos Comunistas, ou seja, entra num governo que vê comunismo em todo canto – até a Rede Globo os banqueiros e o nazismo são comunistas.

        Virou moda dizer que é conservador. Mas ser conservador num país com as desigualdades que tem o Brasil, com tanta exclusão social e com tamanha concentração de renda é ser a favor da continuação disso tudo. Ou seja, num país injusto como o nosso ser conservador é quase um crime, um sacrilégio.

           E mais: a diferença entre quem combate e quem apoia um governo defensor de milicianos e matadores, que promove o armamento da população, que faz apologia ao nazismo, que enaltece torturadores e outros tiranos sanguinários, não é uma simples diferença entre ser conservador e progressista; não é uma diferença ideológica – é uma diferença moral.

             A atriz troca as bolas também aqui: ser conservador na Inglaterra é uma coisa, no Brasil, é outra, bem diferente.

              Mas a troca difícil mesmo para a nova secretária da Cultura é deixar o salário da Globo para administrar os 2 bi da Secretaria. Tanto é difícil que ela exigiu um “período de testes”. Se a coisa não andar bem na nova função, volta correndo para o aconchego da família Marinho. É essa troca difícil que explica a hesitação da atriz; não é sua alegada (e notória) falta de preparo ou habilidade política.

            Ainda nesse ponto da troca de bolas, a atriz disse que o presidente da República é “um homem doce”.

             Machão e valentão como ele é, do tipo que prefere ter um filho morto a um filho gay, que estupraria só mulher que merecesse ser estuprada, que diz que a ditadura matou pouca gente e deveria ter matado uns 30 mil, e “otras cositas mas”, não sei se ele gostou da troca de homem durão por “homem doce”.

              Quando Lula foi eleito em 2002, a atriz Regina Duarte disse que tinha medo. E não queria trocar o medo pela esperança. Viu-se depois que ela tinha medo era do sucesso econômico, social e político do governo Lula. Tinha medo da mudança, mesmo que fosse para melhor – os conservadores são assim mesmo: têm medo do novo e saudade do passado.

              Por isso, na Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro é bom não esperar muita coisa nova não – nem da Secretaria nem da secretária. Aquele sorriso “todos-os-dentes” da namoradinha do Brasil pode ser trocado rapidinho pelo sorriso amarelo da “namoradinha da suástica”. Porque, se alguém tinha alguma dúvida do perfil neonazista desse governo, o ex-secretário Roberto Alvim cuidou de espantá-la.

            Ele não caiu porque é nazista – caiu porque não sabe ser nazista. E porque Bibi Netanyahu mandou o embaixador de Israel, Yossi Shelley, telefonar para o presidente brasileiro. Bastou. Se dependesse do Bolsonaro – que anda até trocando afagos com movimentos nazistas de Minas Gerais – o ex-secretário Roberto Alvim estaria mais forte ainda no cargo, exatamente como ele (Alvim) calculou, mas esquecendo-se do Bibi.

             A troca de Roberto Alvim por Regina Duarte é como trocar seis por meia dúzia. Não que ela fosse nazista (evidentemente não a conheço), mas a atriz disfarça bem o nazismo. Enquanto o ex-secretário mostrava as garras, a nova secretária mostra os dentes – mas não muda nada; a única coisa que muda é o “homem macho” em lugar do “homem doce”, o santo das causas impossíveis em vez do santo martirizado. Rezemos!

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