O teatro da corrupção

              ENTÃO… estamos vendo aí mais um caso pra lá de suspeito no governo Bolsonaro: o chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Fábio Wajngarten, é o homem do Planalto que distribui as verbas para as TVs, e, ao mesmo tempo, tem uma empresa em sociedade com a mãe, FW Comunicação, que presta serviços e recebe dinheiro das tevês, ou seja, ele distribui e depois arrecada.

             Coisa mais ou menos parecida (bem menos grave) aconteceu no governo Dilma. Para resolver, a então presidenta editou uma lei (nº 12.813/13), a chamada Lei do Conflito de Interesses, impedindo que o servidor do executivo federal tivesse emprego ou fosse dono de alguma empresa privada que recebia ou poderia receber dinheiro do governo. Simples assim.

            Com isso, a ex-deputada Rebecca Garcia do Amazonas, que fora nomeada por Dilma para comandar a Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), teve de renunciar a suas cotas participativas numa empresa que poderia ter interesses em verbas governamentais. Renunciou à empresa e ficou no serviço público.

            O mesmo aconteceu com o então ministro da Saúde de Dilma Rousseff, o médico Arthur Chioro, que era dono de uma empresa de consultoria na sua área – Consaúde Consultoria – e teve de desativar essa empresa para permanecer no cargo de ministro; Dilma não aceitou nem mesmo que ele transferisse suas cotas para a esposa; precisou desativar a firma.

            E em 2013, ainda sob Dilma, houve um outro caso semelhante: o então diretor de Gestão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Elano Figueiredo, teve de pedir demissão do cargo de gestor público porque anteriormente havia trabalhado para planos privados de saúde.

             Esse é o governo do PT, que diziam ter inventado e implantado a corrupção no país: editou uma lei para evitar conflitos de interesses entre o setor público e o setor privado, prevenindo a corrupção, e fez com que os servidores ou deixassem a iniciativa privada, permanecendo no governo petista, ou pedissem demissão de seus cargos públicos e fossem cuidar da vida. Simples assim.

               E o que acontece agora, num caso idêntico, dentro do governo Bolsonaro, que foi eleito para acabar com a corrupção? O empresário é simplesmente mantido no cargo público e não desiste de sua participação na empresa privada (em que é dono de 95% das cotas), a qual recebe dinheiro público por intermédio das agências privadas de TV. Simples assim.

             O caso Secom é um caso muito emblemático de como o problema da corrupção é tratado (e manipulado) no Brasil. Imaginem se isso acontecesse num governo do PT; imaginem o escarcéu na mídia e a enxurrada de editais e análises dos capachos da mídia burguesa pedindo a cabeça (e até cadeia) para os petistas.

         Agora, a corrupção é tratada assim: o governo nega e mantém os suspeitos e indiciados nos cargos (vide Onyx Lorenzoni e o ministro do Turismo); as investigações não andam (vide o caso Queiroz); os órgãos de investigação estão manietados (vide o Coaf e a Polícia Federal nas mãos de Moro); a mídia até noticia, mas não divulga, não faz escarcéu nenhum (uma parte dela nem noticia); os “paneleiros” aposentaram as panelas, e assim a vai… Sem ir.

           Não se pode nem perguntar ao Bolsonaro sobre o Queiroz, o ministro Álvaro Antônio, o Onyx Lorenzoni e agora o Fábio Wajngarten. Certeza que ele vai mandar perguntar pra nossa mãe. E nem se ouse saber sobre o dinheiro depositado na conta da primeira-dama por um miliciano; ou sobre a Val do Açaí, que era lotada no gabinete do então deputado Bolsonaro e vendia Açaí na praia; ou acerca das “rachadinhas” da família…

             A história revela que é assim que funciona. A corrupção foi usada para acabar com o governo popular (e com a vida física e política) de Getúlio Vargas; para derrubar o democrata João Goulart; e para dar o golpe no governo popular-democrático de Dilma Rousseff. Como se vê, ela, a corrupção no Brasil, não é para ser combatida, é para ser usada, manipulada.

            Agora, não adianta ir pra rua pedir a demissão do chefe da Secom – que tem uma empresa privada de comunicação e, como empresário, se reuniu mais de 67 vezes com donos de TVs a quem ele distribui o seu (o meu) rico dinheirinho. Não adianta pôr camiseta verde-amarela da gloriosa seleção, bater panela, meter bandana na cabeça, fazer selfie com polícia, pedir intervenção militar… Não adianta nada disso – a encenação moralista já passou.

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