Nazismo plagiado

         PARA dizer o mínimo, é simplesmente assustador o vídeo em que o secretário da Cultura Roberto Alvim – aquele mesmo que chamou Fernanda Montenegro de “mentirosa” e “sórdida” – anunciou a criação do Prêmio Nacional das Artes, dirigido a vários setores artísticos. O vídeo não é só assustador – é também ridículo.

            Começa pelo cenário. De um lado, a bandeira brasileira. Acima da cabeça engomada do secretário, a fotografia do presidente da República. Do outro lado, uma cruz patriarcal. Pergunta-se, pra que aquela cruz ridícula? O Estado não é laico? E ainda por cima uma cruz bizantina, ortodoxa, sugerindo um fundamentalismo religioso fora de lugar; fora do tempo – só faltou a suástica.

           A música de fundo do vídeo (uma ópera de Wagner, compositor preferido de Hitler), se não era tétrica, era exageradamente sóbria para a ocasião, e para o assunto, por isso, chega a ser sombria, soturna, plangente demais – sem exagero, mais própria para anúncios fúnebres.

          A figura do secretário, essa sim, era tétrica, e ridícula também: cabelo emplastrado e penteado para trás, rente à cabeça, imitando sem pudor os dirigentes nazistas. O olhar fixo e arregalado. O semblante pesadão, fazendo caras e bocas, como quem quer falar à alma das pessoas; como quem anuncia medidas extraordinárias de redenção nacional – em tempos de guerra.

         Mas o pior ainda é o texto. O secretário plagiou descaradamente o ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, copiando sem disfarçar, às vezes trocando apenas a ordem de algumas palavras. E o fez sem citar o ministro nazista. Ou seja, é plágio no duro, na caradura. Nem pra ser nazista esses caras servem – precisam imitar, copiar, plagiar…

             Confiram os dois textos.

       Diz o ministro alemão: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”. Agora, o secretário brasileiro: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

               É simplesmente constrangedor. Um plágio clássico. Não dá para entender como é que essa gente chegou aonde chegou. Fica cada vez mais claro que há mesmo um projeto para destruir o acervo civilizatório que o país vem construindo pouco a pouco, a duras penas – pretendem inclusive negar e reescrever a história do Brasil. Deboche ou delírio?

              O vídeo todo se perde numa arenga, num pastiche sem sentido que mistura pátria, família e Deus, sem nenhuma conexão com as artes. Que eram, na verdade, o motivo do pronunciamento. O secretário, arbitrariamente, faz de uma mensagem política uma cerimônia ideológica, religiosa, nacionalista, patriarcal… Miscelânea.

           Termina sua infantilizada e constrangedora peroração dizendo que “2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura no Brasil”. Como assim, secretário? Não é o governo de seu chefe que declarou guerra à Ancine?, que censurou filmes e obras de arte cortando patrocínios por empresas públicas? que vai fechar a TV Escola?, que extinguiu o Ministério da Cultura?

            Posteriormente, numa entrevista, o secretário Alvim disse que assina embaixo das declarações do nazista Joseph Goebbels. Afirma e reafirma que as ideias desse ideólogo de Hitler são “simplesmente perfeitas”. Não sei de onde saiu essa gente que Bolsonaro escolheu a dedo; temo que isso não dê em coisa boa – a esperança é que esses caras não tenham competência nem para copiar o nazismo.

         Enfim, resta saber até que ponto o povo brasileiro estará disposto a engolir a mediocridade, o plágio, as mentiras, a censura e o autoritarismo desse governo. O eleitorado bolsonarista não vai dar o braço a torcer, e parece disposto a engolir o Bolsonaro de qualquer jeito – com casca e tudo. A esperança é que os demais brasileiros e brasileiras – nem que seja por medo – comecem a perceber que o “ovo da serpente” veio parar nosso ninho.

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