Irã: a favor ou contra?

          A ESTÚPIDA polarização em que se encontra metido o país fez com que muitos brasileiros, mesmo de longe, tomassem partido nessa nova crise do Oriente Médio: aparentemente, o bolsonarismo defendendo Trump, o antibolsonarismo condenando o ataque determinado pelo presidente norte-americano, que matou o líder do grupo de elite da Guarda Revolucionária do Irã – general Qassim Suleimani.

              A internet já está cheia de memes, charges e notícias curtas num e noutro sentido, a favor e contra o Irã. Muitos brasileiros, assim como Bolsonaro, tomaram partido. E, claro, as opiniões são (supostamente) livres, variam de acordo com o “gosto” de cada um. Mas os fatos são os fatos, não variam de acordo com as opiniões, e seria bom que fossem levados em conta antes de opinar.

            Por exemplo: um fato inquestionável é que a grande vítima de toda essa escaramuça é o Iraque. Porque as bombas, mísseis e drones estouram em seu território, vitimando sua população. Aliás, os iraquianos são vítimas passivas desde a guerra de agressão comandada por Bush-pai nos anos 90, continuando com a invasão do país em 2003, esta tocada por Bush-filho – portanto, só os Bush mataram meio milhão de pessoas, milhares de crianças, no Iraque.

            Outro fato é que a guerra no território iraquiano está sendo feita por uma grande potência bélica, atômica e imperialista (EUA) contra uma média potência regional (Irã). Aí não tem inocente, nem vítima. Ambos, EUA e Irã, despejam bombas na cabeça dos iraquianos; o país está destroçado, um palco de guerra entregue à ação das milícias.

            Mais um fato (e não boato) a respeito desse conflito: Os Estados Unidos têm no Oriente Médio 27 bases militares, distribuídas por 12 países, e mantêm na região 80 mil soldados. Só na Turquia os americanos guardam um estoque de 50 armas atômicas, prontas para entrar em ação – notem: isso tudo é fato, não é simples opinião. O que é que os ianques estão fazendo lá? Passeando que não é.

             É fato também que o Irã não está se enfiando na América, ocupando e instalando bases militares aqui no Ocidente, ao redor do império do Norte; os iranianos não têm nem um traque baseado nas imediações do Golfo do México, Canadá e adjacências. Se isso acontecesse, o país persa já estaria destroçado e invadido pelos norte-americanos há muito tempo.

              Esses são os fatos; agora, uma opinião.

            O presidente Trump mandou matar o segundo homem do Irã para estancar a queda de sua popularidade interna, escapar de um impeachment e reeleger-se este ano. É histórico: a aprovação dos presidentes norte-americanos explode, vai lá em cima, toda a vez que o país entra em guerra. Nessas ocasiões, o povo norte-americano se sente mais seguro apoiando seu líder.

             Outra opinião: o ataque determinado pessoalmente por Trump foi, sim, um ato de guerra – uma guerra não declarada, mas deflagrada. Se o Irã responder na mesma moeda (como parece que já está acontecendo), e tentar matar algum figurão norte-americano nas bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, aí sim, será guerra mesmo, clássica – de parte a parte.

        É por isso que o governo russo tachou a atitude de Trump como “um passo aventureiro”, que só aumenta as tensões na região. E a verdade é que até mesmo a eleição de Trump para a Casa Branca – um empresário que até ontem apresentava concursos de misses na televisão – foi uma aventura temerária do povo norte-americano; tornou o mundo mais inseguro.

              E o que é que o Brasil ganha tomando parte nessa pendenga, como fez o presidente Jair Bolsonaro, apoiando Trump e qualificando o governo do Irã como terrorista? Não ganha nada – só perde. Perde sua posição histórica de neutralidade nos conflitos do Oriente Médio; o que sempre lhe garantiu a imagem de país conciliador – fundamental para a negociação de nossos interesses comerciais na região.

          Esse alinhamento automático de Jair Bolsonaro ao governo Trump já está patético demais. Passou da conta. A diplomacia brasileira nunca esteve assim tão de arrasto, tão subserviente. É uma diplomacia lambe-botas, que ainda vai acabar arranjando confusão pra nós – e gratuitamente.

              Se Trump é um aventureiro, Bolsonaro não é menos. A diferença é que Trump age em defesa dos interesses de seu país, Bolsonaro defende o país dos outros; Trump não cede um milímetro de seu território, Bolsonaro já entregou a nossa Base de Alcântara; um, ataca o Irã e consolida o poderio de seu país, o outro, xinga o Irã e perde o peso moral de país neutro. Que diferença, hein?!

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