A “nova política”

             ESTUDIOSOS afirmam que a ascensão de políticos como Donald Trump nos EUA, Erdogan na Turquia, Duterte nas Filipinas, Viktor Orbán na Hungria, Matteo Salvini na Itália e Bolsonaro no Brasil, todos com características afins, constitui um fenômeno político novo. E seria um fenômeno produzido (“fabricado”) pela tecnologia digital – ou seja, um produto ou, para alguns, um subproduto da internet.

            Esses políticos – alçados, repentinamente, dos escalões inferiores ao patamar de cima da política – chamam a atenção por algumas características: são conservadores e autoritários; pertencem ao campo da direita (ou extrema-direita); são populistas; se apresentam como “políticos antissistema”; têm um discurso desafiador, e, muitas vezes, grosseiro, agressivo.

          Hoje já se sabe que as tecnologias digitais passaram a ter um impacto colossal na política. Idealizadas inicialmente para influenciar consumidores, são agora utilizadas para não só influenciar como definir o resultado de eleições. A eleição de candidatos outsiders (e excêntricos) como Bolsonaro e Trump, bem como a votação do brexit na Inglaterra, são os exemplos mais citados no mundo.

            É tamanha a influência das tecnologias digitais na política que hoje o vocabulário desse campo até já incorporou o neologismo “tecnopolítica” – muito mais poderosa que os antigos panfletos e faixas, que a televisão e os marqueteiros, na tarefa de convencer e conquistar eleitores. E quais seriam as táticas (poderosas) que os estrategistas da tecnopolítica (como um Steve Bannon, por exemplo) vêm utilizando?

           Em primeiro lugar: esses estrategistas da direita captaram – muito antes que a esquerda – um enorme desencanto, no mundo todo, para com a democracia representativa e seus políticos. Perceberam também que havia igual desencanto, por parte das classes médias e pobres, em relação ao sistema econômico mundial – organizado para servir às elites.

             Havia, portanto, um cenário generalizado de insatisfação popular: com a política e com a economia liberal. Da insatisfação para o medo (de perder direitos e status) foi um pulo. Do medo para a revolta, foi um caminho natural. Da revolta ao ódio, bastou apenas potencializar o receio dos revoltosos.

           E foi isso o que os engenheiros da tecnopolítica passaram a fazer: explorar a insatisfação, o medo, a revolta e o ódio, que eram, enfim, as energias que estavam na praça; bastava apenas canalizá-las politicamente. Assim, no lugar da argumentação e do discurso político racional – sobre direitos e programas governamentais – passaram a usar um discurso emocional, capaz de atuar diretamente na psique e na vontade do eleitor.

            De fato, para explorar tais sentimentos, os engenheiros digitais têm utilizado mecanismos que agem diretamente na emoção – obscurecendo a razão e a crítica. É aqui que entram em cena os algoritmos, que permitem a elaboração e o impulsionamento de mensagens personalizadas, com potencial para “emocionar” e “capturar” a vontade do eleitor atingido – é uma ação no córtex, no cérebro; e não no raciocínio e na razão.

             Tais mensagens socioemocionais e individualmente direcionadas são geralmente curtas (memes, vídeos, fake news, deepnews, hashtags, microtargets etc.), enviadas sistematicamente pelo Facebook, WhatsApp, Twitter, YouTube e outros, sempre de acordo com o perfil ideológico e psicológico do destinatário – assim definido pelos algoritmos retirados do Big Data disponível nas plataformas sociais da internet.

               Para o envio em massa e impulsionamento automático, utilizam-se “bots” (robôs). Mas, pessoas reais, de carne e osso, também realizam esse trabalho, voluntariamente ou mediante recompensa. Da mesma forma, grupos engajados, especialmente constituídos para esse fim, ou já preexistentes, completam a tarefa de “enxamear” a internet com mensagens políticas: falsas, verdadeiras, meio verdadeiras ou deturpadas (descontextualizadas, customizadas, manipuladas).

             Os algoritmos, que definem os perfis dos eleitores (insatisfeitos, conservadores, indecisos, raivosos, medrosos etc.), permitem também a formação de “bolhas” na internet: ambientes fechados em que as informações circulam com o objetivo de reforçar as opiniões dos destinatários, dentro da “bolha”, enviando-lhes exatamente as mensagens que eles gostariam de receber – porque elas confirmam seus sentimentos ou juízos prévios (“viés de confirmação”).

          Nesse ambiente, as fake news, teorias conspiratórias, notícias enviesadas e sua repetição sistemática, produzem um grande abalo nas verdades factuais. É o ambiente da pós-verdade. Por isso, para que a verdade factual não prevaleça, a nova engenharia tecnopolítica julga importante estimular o anti-intelectualismo e a desmoralização da ciência, da cultura e da universidade.

             A fim de abalar a verdade, abrindo caminho para a mentira, é importante que os líderes populistas se sintam à vontade para mentir, negar a realidade e dizer os mais desconcertantes absurdos: Trump sustentou que Obama era nascido no Quênia e Hilary Clinton protegia uma rede de pedófilos nos porões de uma pizzaria. Bolsonaro afirmou que Leonardo DiCaprio incentivava as queimadas na Amazônia.

         Estão livres também para ameaçar a democracia, a liberdade (de expressão e imprensa) e quaisquer instituições essenciais ao regime democrático. O objetivo é “desnortear a razão” (Bernardo Carvalho), ou, desmoralizar a racionalidade, para tornar fértil o terreno da mentira, da demagogia, do populismo, da manipulação.

             Explorando a ignorância e, sobretudo, o medo e a revolta (contra a democracia liberal representativa e a ordem econômica do liberalismo), ou seja, explorando a revolta “contra tudo o que está aí”, os senhores da tecnopolítica realizaram a façanha de alçar ao topo do poder alguns líderes políticos sem conteúdo nem representatividade, simplesmente por serem (ou parecerem ser) políticos antissistema, fundadores da “nova política”.

             Para tanto, esses líderes não precisam ter nada: nem conteúdo nem programa; basta-lhes um discurso destruidor (do sistema) e agressivo, capaz de continuar emulando o ódio que os elegeu. É assim que a “raiva” se transforma em “esperança” (esperança num novo sistema); e talvez, doravante, seja a nova forma de fazer política – na internet e nos neurônios, apartada da lógica e da razão.

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