O cara de nove dedos

           O PRESIDENTE Jair Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada e diante dos holofotes da imprensa, referiu-se ao ex-presidente Lula como “O cara de nove dedos”. Isso é crime. Está previsto no art. 88 da Lei Federal nº 13.146/15 (Estatuto da Pessoa com Deficiência), que pune toda prática capaz de induzir ou incitar a discriminação de pessoa em razão de sua deficiência.

                 A prova material do crime circula na internet. Cena deprimente. Trata-se de uma conduta que vai além da simples falta de decoro – é uma conduta criminosa. Punida com pena de reclusão de 1 a 3 anos – dá cadeia, e dá impeachment.

             No mesmo dia, o presidente praticou outra conduta criminosa, agora contra a memória e a honra do patrono da educação brasileira, Paulo Freire. Chamou-o de “energúmeno”. Quebrou o decoro novamente, e só não cometeu crime porque, tecnicamente, não há crime de injúria contra os mortos; o que há é apenas amoralidade e covardia – a covardia dos que atacam quem não pode se defender.

                 O presidente, autoritário e populista, se revelou incapaz de governar o país – não por acaso, seu governo é o mais mal-avaliado da nossa história, no primeiro ano de mandato -, mas parece incapaz também de entender até mesmo seu papel como presidente da República. Não tem equilíbrio, não tem compostura; já não digo elegância, bom senso.

                Para uns e outros, esse estilo grosseiro do presidente é fruto de sua simplicidade, jeitão próprio das pessoas que têm a franqueza de dizer o que pensam. Desculpem, mas é muita licença: o presidente da República do Brasil é um homem vulgar, descortês; seu cargo não lhe dá o direito de distribuir ofensas e torpezas.

              Se as instituições estivessem de fato funcionando neste país, Jair Bolsonaro já estaria no olho da rua sem completar o primeiro ano de mandato. E não pelo “conjunto da obra”; mas, isto sim, pelo “conjunto dos crimes” que tem cometido, reiteradamente, reincidentemente.

            O crime cometido contra Lula da Silva é daqueles que estimulam o ódio, o preconceito e a discriminação. Vindo de um presidente da República, que deveria se comportar como o máximo magistrado da nação, significa que estamos à deriva – em termos de liderança, de respeito à lei e de padrão de moralidade.

                   E o mais irônico é que Jair Bolsonaro fora eleito com um discurso moralista, de combate às ilegalidades, e de liderança forte – chegou a ser chamado de “mito”. No governo, revela-se uma liderança fraca, hesitante; um governante autoritário, que despreza a lei; um homem estúpido, que tem dificuldade para manter-se dentro dos padrões básicos de civilidade, de correção moral.

             O “bolsonarismo” – que não coincide nem representa todos os eleitores que votaram em Bolsonaro – é uma ameaça ao pacto social e político da Constituição de 1988; constitui ameaça à paz, e também aos padrões mínimos de civilidade, necessários para que um povo e uma nação se mantenham coesos – convivendo pacificamente, harmoniosamente.

                 Ou seja, o “bolsonarismo” aposta nas armas, na guerra e no ódio. Não aposta no direito, na democracia e no desenvolvimento. É um estado de espírito beligerante, permanentemente afrontoso, hostil, agressivo. Onde já se viu um presidente da República identificar uma pessoa – qualquer pessoa que seja – por sua deficiência física? Referir-se a um indivíduo que fora mutilado trabalhando no país “campeão” de acidentes do trabalho. Ninguém merece!!!

             E os demais brasileiros amputados, portadores das mais diversas deficiências, físicas ou não, como é que haverão de sentir-se diante da grosseria do presidente? Como reagiram ao sentir que um dia poderão receber o mesmo tratamento?, por parte do mandatário boquirroto ou daqueles que se inspiram nele, que o seguem.

                Já não se espera que esse seja um governo competente – nunca se esperou isso. Nem se espera também que seja democrático, tampouco que se submeta rigorosamente aos ditames da lei e da Constituição. Espera-se que ao menos tenha decência – mas essa é uma esperança que o próprio chefe de governo cuida de frustrar, e com uma competência que, infelizmente, não tem para governar.

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