Moro mente

             NO INÍCIO, o atual ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato dizia que, apesar de sua repentina popularidade, não tinha pretensões políticas – jamais deixaria a magistratura para assumir qualquer outro cargo – eletivo ou não. Pois, segundo ele, isso poderia afetar sua imagem de juiz imparcial. Era mentira.

                Na primeira oportunidade, o então juiz trocou seu cargo de magistrado por um cargo político. O argumento, esfarrapado, era de que, no Ministério da Justiça, teria melhores condições de combater a corrupção. Mentira – esse item, do combate à corrupção, é um dos mais mal avaliados pelo público na gestão Bolsonaro/Moro, segundo o Datafolha.

              Antes da eleição presidencial, Sérgio Moro dizia que não poderia aceitar um cargo no governo porque isso também mancharia sua reputação de juiz imparcial e apartidário. Negou que houvesse recebido o convite para integrar o ministério de Bolsonaro. Mentira. Hoje sabe-se que ele aceitou o Ministério da Justiça antes mesmo da eleição de seu chefe.

                O juiz da Lava Jato, enquanto processava Lula da Silva, dizia que não tinha nada pessoal contra o ex-presidente da República. Que, portanto, o julgava com imparcialidade e respeito. Mentira. Sérgio Moro cometeu crimes contra Lula (violação de sigilo telefônico e abuso de autoridade) – odiava o ex-presidente e nunca o respeitou.

               O tempo todo, durante os processos que tocou à frente da Lava Jato, Sérgio Moro se dizia um juiz neutro, que obedecia estritamente a lei. Mentira. O site The Intercept mostrou que o então juiz atuava em parceria com a acusação, contra Lula, protegeu FHC e Eduardo Cunha, violou diversas vezes a lei, e também a Constituição, que ele jurava obedecer “estritamente”.

               Sobre as revelações do The Intercept, Sérgio Moro diz que não confirma nem nega a autenticidade das mensagens, mas garante que não há nelas nenhuma ilegalidade. Mentira. A colaboração entre juiz e acusação é uma ilegalidade insanável, absoluta, suficiente para anular qualquer processo.

            Há pouco tempo, o ministro Moro passou ao presidente Bolsonaro informações privilegiadas sobre um inquérito sigiloso da Polícia Federal, que investigava o “laranjal” do bolsonarismo. Moro disse que não “vazou” nada. Mentira. O próprio Bolsonaro, boquirroto, disse em coletiva de imprensa que recebera as informações do Ministério da Justiça, pelas mãos do próprio ministro.

                Agora, Moro diz que a decisão do STF, proibindo a prisão em segunda instância, aumentou a percepção do público sobre a ineficiência do governo federal no combate à corrupção. Mais uma mentira.

            A percepção da opinião pública se deve ao fato de que o governo, e o próprio ministro, não tomou nenhuma providência nessa área. Não tem nada para mostrar ao público. Ao contrário, Bolsonaro esconde a corrupção de sua própria família e Moro perdoou alguns corruptos que integram o governo do capitão – ministro do Turismo e Onix Lorenzoni.

                  No começo do governo, escorado no prestígio da Lava Jato, Sérgio Moro tentou  manter-se prudentemente longe do “bolsonarismo”, mostrava até algum constrangimento com a liberação de armas, liberação de agrotóxicos e declarações estapafúrdias de Bolsonaro e família. Pretendia preservar sua aparência de legalista, neutro, equilibrado… Tudo mentira, pura encenação.

           Depois das revelações do The Intercept, depois que a verdade veio à tona, Sérgio Moro mergulhou de cabeça no bolsonarismo. Caiu sua máscara. Hoje, defende o patrão com unhas dentes, e até aceitou uma obra que retrata sua própria figura, feita com cartuchos de bala (que é a marca do bolsonarismo), deixando-se fotografar ao lado dessa obra; não se importa mais com a pecha de “bolsonarista” – vestiu a camisa.

             Esse é o juiz honesto, que deixa a toga para afundar na mentira e na “necropolítica” (Achille Mbembe), ou seja, na política da morte. Não é à toa que o pacote anticrime de Sérgio Moro, cheio de inconstitucionalidades, concede “licença para matar” a uma das polícias mais letais do mundo. Parece mentira, só que agora é verdade: Sérgio Moro é mais um agente explícito do neofascismo que ronda a política brasileira!

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