Escritórios e gabinetes

           O DEPOIMENTO de uma deputada federal na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, CPMI das Fake News, é gravíssimo – em tempos de normalidade seria estarrecedor. Segundo a parlamentar, há um grupo de assessores especiais da Presidência da República, chamado “Gabinete do Ódio”, que se ocupa em propagar notícias falsas e difamações pela internet.

               A deputada dá nomes e sobrenomes dos integrantes desse “gabinete”. É preciso dizer que essa deputada não é qualquer deputada: foi a líder do governo Bolsonaro na Câmara até outro dia. Resolveu delatar os “milicianos digitais” porque, ela própria, fora vítima da difamação que eles propagam.

                 Pois bem. O que faz o presidente Jair Bolsonaro, quais as providências que toma diante da grave delação feita pela deputada? Diz que ela é idiota.

               No Rio de Janeiro, há uma milícia integrada por pistoleiros de elite, matadores de aluguel (assassinatos por encomenda), chamada “Escritório do Crime”. É chefiada por um ex-capitão do BOPE. Trata-se justamente da milícia que está por trás (ou à frente) dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson.

            Uma vez preso, o conhecido chefe do tal “escritório” foi formalmente homenageado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, por indicação do deputado Flávio Bolsonaro. A mulher e a mãe do ex-capitão trabalhavam no gabinete desse deputado e só foram demitidas após as revelações do escândalo.

             É forçoso concluir que essa proximidade do presidente da República, e de seus familiares, com o “Escritório do Crime” e o “Gabinete do Ódio”, no mínimo, chama a atenção. Não cabe aqui tirar conclusões, mas isso não é normal; é preocupante.

          E o histórico político do presidente Bolsonaro não ajuda nem um pouco. Aliás, aumenta a preocupação. Em 28 anos de Congresso ele se notabilizou apenas – e tão somente -, por suas opiniões bizarras, entre elas os sistemáticos elogios às milícias, aos grupos de extermínio, à pena de morte, à tortura e a outros crimes.

              A mímica que simbolizou a vitoriosa campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República, como todos sabem, foi uma “arminha”, feita por um gesto de mão: indicador estendido e polegar na vertical. A sugerir, portanto, que o ex-capitão, que fazia apologia a grupos de extermínio, iria agora exterminar seus adversários.

           Há pouco, o presidente deixou seu partido (PSL) e fundou uma nova agremiação, com o nome de Aliança pelo Brasil. Fez questão de registrar essa sigla partidária com o número 38, em referência ao calibre de um revólver – por isso, o partido já está sendo chamado pelo apelido da arma: “Trezoitão”.

          Parece claro que o presidente e seu clã não têm a menor condição (tampouco a vontade) de superar esse clima tenso de polarização que tomou conta do país. Ao contrário, a política de Bolsonaro é alimentar a divisão, a rivalidade, o ódio. É assim que ele se mantém ativo no cargo: ativando o ódio sem ativar nenhum programa, nenhum plano de governo, nenhum resultado.

              O que poderia salvar as aparências (tão negativas) do governo Bolsonaro seria uma reação favorável da economia. Algo que foi noticiado nas últimas horas – aumento do PIB no terceiro trimestre do ano. Só que o Financial Times, órgão de imprensa mais respeitado no mundo das finanças, contestou os números do governo brasileiro, e o governo voltou atrás – era fake o crescimento do PIB.

              Se países como o Brasil dependem de investimentos externos para o crescimento da economia, a confiabilidade no governo é peça-chave. Esse desmentido feito pelo Financial Time sobre o nosso PIB detona a confiança dos investidores estrangeiros. Pelo jeito, além do “Escritório do Crime” e do “Gabinete do Ódio”, o governo vai ter que explicar bem explicadinho o seu “Gabinete da Mentira”.

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