Ameaças do bolsonarismo

             NÃO há dúvida: o bolsonarismo é hoje uma força política – queiramos ou não. É uma força de extrema-direita, populista e, naturalmente, autoritária. O atual presidente da república representa um grande risco para a democracia. Seu governo, além de populista e autoritário, é fundamentalista.

          O governo de Jair Bolsonaro, completamente vazio de projetos e programas, sustenta-se numa retórica bravateira que combina autocracia com fundamentalismo de mercado, moral e religioso.

           A mistura desses ingredientes – populismo de direita, autoritarismo e convicções fundamentalistas – constitui a receita certa para a arruinar qualquer democracia, minando-a por dentro, pelo desmantelamento paulatino, progressivo e silencioso das instituições democráticas. É isso o que está acontecendo em outras partes do mundo (Hungria, Polônia, Turquia, EUA); é isso o que pode acontecer no Brasil.

        No nosso caso, meia dúzia de sintomas confirmam os ataques do governo à democracia. São sintomas claros, inconfundíveis, que representam ameaça concreta e, portanto, perigo real para a liberdade e a normalidade democrática no país.

               O primeiro deles é essa proposta de fortalecer a polícia com o pacote anticrime e a “excludente de ilicitude”. Segundo muitos e renomados juristas, trata-se de uma verdadeira “licença para matar”. O governo quer agora estender essa licença para o campo, autorizando proprietários a utilizar armas para matar possíveis esbulhadores ou ocupantes de terras.

               O próprio presidente admitiu que o projeto de lei que estabelece a tal “excludente de ilicitude” – uma desculpante penal para policiais – visa instrumentalizar as operações de GLO – Garantia de Lei e Ordem, com o objetivo declarado de reprimir protestos e manifestações públicas nas ruas. Alguma dúvida sobre o que isso representa de ameaça à democracia?

              O segundo ponto é o confronto que Bolsonaro tem estabelecido com a imprensa que o critica. Pretende calar seus críticos e opositores. Tem ameaçado cassar concessões de mídias e boicotar anunciantes daqueles jornais que não concordam com o governo. Lembremos que a primeira coisa que os regimes autoritários fazem é exatamente reprimir a liberdade de imprensa.

            O terceiro sintoma são as reiteradas falas autoritárias do presidente e sua entourage sobre fechamento do Congresso, fechamento do STF e reedição do AI-5. Essas declarações não são gratuitas; funcionam como balão de ensaio para avaliar a reação do público, e também do bolsonarismo, que até agora se mostrou disposto a apoiar o presidente de maneira incondicional.

            O quarto problema é a inaceitável proximidade do presidente com as milícias organizadas. Ele sempre defendeu grupos de extermínio e pena de morte. Elogiou milicianos. Seus filhos até homenagearam oficialmente alguns deles. Um Estado policial, com o fortalecimento e a aproximação entre polícias e milícias, é nitroglicerina pura contra a democracia; foi assim que começou o fascismo e o nazismo.

               O quinto sintoma: linguagem agressiva e raivosa do presidente, e seus seguidores. Isso estimula a cizânia e a polarização e não deixa dúvida sobre a disposição de atacar (e eliminar) adversários. Que eles chamam violentamente de “vagabundos”. São os pobres, negros, índios, presidiários, movimentos sociais, militantes de esquerda, integrantes de minorias, opositores etc. Esses, devem ser simplesmente calados, ou eliminados, para o bem das pessoas de bem.

               A agressividade do bolsonarismo é temperada com discursos de defesa da pátria e da família e em nome de Deus. Todo regime fundamentalista e autoritário sempre juntou esses elementos: pátria, família e Deus. Mas é um patriotismo não nacionalista; um conceito restritivo de família (casais héteros); e um deus punitivista, que pune os “pecadores” que “ameaçam” a ordem e os bons costumes.

           Sexto problema: o anti-intelectualismo. Ou seja, a censura interna do governo imposta a várias obras e eventos artísticos, bem como a guerra à universidade. Isso tudo é indício veemente de regime autoritário. Toda ditadura se caracteriza – e se impõe -, pela repressão, aberta ou velada, à liberdade de pensamento e expressão, quer dizer, à liberdade de intelectuais e artistas.

              Esses sintomas todos, explícitos e reiterados, têm o apoio popular do chamado “bolsonarismo de raiz”. Que vai apoiar o presidente em qualquer circunstância. Pois é um bolsonarismo que existe antes mesmo de Bolsonaro existir. É um perfil político-ideológico, uma mentalidade que já estava aí e apenas ganhou voz, vez e visibilidade com a ascensão inesperada do capitão autocrata.

            Do outro lado estão as forças democráticas, antiautoritárias. Elas podem se  concentrar na direita tradicional, na centro-direita, na esquerda e na centro-esquerda. Se não houver uma união dessas forças, para barrar a escalada autoritária de ultradireita, pode ser que o país venha a mergulhar num período politicamente perverso, sombrio. É isso que, a meu ver, a sociedade brasileira precisa enxergar e discutir – urgentemente e sem rancor.

______________________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s