A autocrítica do PT

               VIROU moda dizer que o Partido dos Trabalhadores deveria fazer uma autocrítica. Quer dizer: criticar a si mesmo, reconhecer seus próprios erros. Mas, para quê?, se o partido já fez isso em seus congressos e no embate interno de suas várias correntes. Aliás, o PT vive fazendo autocrítica; talvez seja o partido que mais debate suas pautas, estratégias, acertos e erros.

           Não há um único petista que não tenha criticado seu partido pelas alianças que fez com a direita; por ter entrado no jogo (lícito e ilícito) do financiamento privado de campanha; por ter ampliado seus quadros sem critério ideológico, admitindo até gente como Delcídio do Amaral, um ruralista de direita que comandava esquema de propinas na Petrobras, onde foi colocado por FHC.

          De mais a mais, não se conhece no Brasil nenhum outro partido que tenha sido criticado tanto quanto o PT. E não só criticado. Perseguido pela grande mídia, e, agora também, por órgãos repressivos estatais que praticam o lawfare. Não apenas criticaram o PT, criminalizaram a sigla e demonizaram os petistas. O que querem mais, se o PT vive debaixo de pancada?

              O que querem na verdade não é a autocrítica e sim a execração do partido. É isso que o ex-presidente Lula disse que não fará. E faz bem em não fazê-lo. Deixe que a mídia, os órgãos de controle e a sociedade civil o faça.

          Antes de exigir a autocrítica do PT, a mídia deveria fazer a sua própria. Deveria explicar à sociedade por que encobriu até agora as manobras fraudulentas do ex-juiz Sérgio Moro contra Lula e os petistas. Cadê a autocrítica do Ministério Público e do Judiciário pelas ilegalidades cometidas no âmbito da Lava Jato por procuradores e juízes politicamente engajados?

             Essa história da “autocrítica do PT” já está comprida demais. Hipocrisia. Quem deve fazer autocrítica são os críticos do PT, que não exigem a mesma coisa de outros partidos nem criticam aqueles que cometeram (e vêm cometendo) verdadeiras atrocidades jurídicas contra o Partido dos Trabalhadores e seus líderes.

             Não há nenhum outro partido tão perseguido pela Justiça. Nenhum deles teve seus líderes, dirigentes e tesoureiros condenados e presos. Esses que exigem a “autocrítica do PT” nem sequer sabem o nome, por exemplo, dos presidentes e tesoureiros dos outros grandes partidos – mas conhecem muito bem um Lula (preso), José Genoíno (preso), Zé Dirceu (preso), Delúbio Soares (preso), João Vaccari Neto (preso), Silvinho do PT (preso); todos dirigentes ou ex-dirigentes da sigla petista.

            Por acaso alguém sabe, sequer, o nome do presidente e do tesoureiro do PSDB nas milionárias campanhas presidenciais de FHC, José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves? Ninguém sabe – nem quer saber.

           No entanto, o partido dos tucanos e seus dirigentes, conforme deixaram claro as delações da JBS e da Odebrecht (e outras delações), foram igualmente (ou até mais) financiados por empreiteiras corruptas e pelo caixa-dois. Todavia, como se sabe, seus dirigentes partidários nunca foram molestados pela Justiça, permanecem incógnitos até hoje – sem crítica nem autocrítica.

          Enquanto isso, os dirigentes do PT foram execrados em praça pública. Se houve erros, e até crimes, os outros partidos os cometeram na mesma medida e intensidade, porque esse era o funcionamento “normal”, a realpolitk das campanhas financiadas pelo dinheiro dos endinheirados. Mas ninguém exige autocrítica de partido nenhum, a não ser do fustigado PT.

              Claro que o PT teve erros, e já os reconheceu – interna e externamente. Mas seus erros não eram propriamente do PT, e sim de um modelo de financiamento de campanha que vigora muito antes de o partido chegar ao poder. O esquema de desvio na Petrobras, no mínimo, vem desde os governos de FHC, que o juiz Sérgio Moro não quis investigar, e impediu que a Lava Jato o fizesse, sob o argumento partidário de que o tucano seria um “aliado político”.

          Essa história da “autocrítica do PT” foi longe demais. É, notoriamente, uma estratégia de seus adversários e da mídia empresarial. Quem enxerga um palmo adiante do nariz sabe que o PT errou, mas foi (e continua sendo) bode expiatório. O PT é o único partido brasileiro que tem programa, consistência ideológica, base popular e dois milhões e meio de filiados – o maior partido de esquerda da América Latina.

            Por isso, vive sob crítica – tanto interna quanto externa. A autocrítica que se-lhe exigem é um exagero, uma lenga-lenga enjoativa. Virou moda. Basta que algum entendido dê entrevista ou escreva um artigo de jornal para vir com o mantra: O PT precisa fazer autocrítica. Para quê, e para quem?, se o PT já foi revirado do avesso pela mídia e por setores partidarizados da Justiça.

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