Entendendo os protestos

           HÁ alguns anos (precisamente em 2013), escrevi neste mesmo espaço um texto com o título “Ventos Esquisitos na América Latina”. Nele, expressava alguma surpresa pelo fato de que, desde o final da década de 90 e início dos anos 10 deste século, o povo latino-americano vinha elegendo, sucessiva e concomitantemente, governos de esquerda e de centro-esquerda.

         Enquanto o neoliberalismo era gestado na Europa e nos EUA, com Margareth Thatcher e Ronald Reagan, aqui, na América Latina, os eleitores rejeitavam essa ideologia, escolhendo governantes que se opunham às políticas econômicas neoliberais e propunham um modelo de Estado de Bem-estar Social.

            Foi assim que a região, dando uma guinada esquisita à esquerda, elegeu Lula da Silva e Dilma Rousseff (Brasil), Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia), Hugo Chávez e Nicolás Maduro (Venezuela), Michelle Bachelet (Chile), Fernando Lugo (Paraguai), Daniel Ortega (Nicarágua), Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Manuel Zelaya (Honduras), Ollanta Humala (Peru), Tabaré Vásquez e José “Pepe” Mujica (Uruguai), para a presidência da república de seus respectivos países.

       Muitos desses governantes foram eleitos duas ou mais vezes, e fizeram seus sucessores, numa demonstração de que o eleitor latino-americano estava determinado a prosseguir com os ventos de esquerda.

             Mas eis que de repente os ventos mudaram. Começaram derrubando Fernando Lugo no Paraguai; depois, derrubaram Manuel Zelaya em Honduras; derrubaram Dilma Rousseff no Brasil; tentaram derrubar Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela; e acabaram de derrubar Evo Morales na Bolívia.

           Além de derrubar esses governantes, os aparelhos repressivos (Polícia, Judiciário e Ministério Público) de Argentina, Brasil e Equador passaram a perseguir os ex-presidentes Cristina Kirchner, Lula da Silva, Dilma Rousseff e Rafael Correa por meio de escancarada prática de lawfare – uso da lei com fins políticos.

           Protestos populares de massa espocaram em vários países – Peru, Chile, Equador, Brasil, Argentina, Honduras, Paraguai, México, Venezuela e Bolívia. Os analistas vêm tentando identificar as causas dessa agitação que, da noite pro dia, tomou conta da América Latina como se fosse uma reação em cadeia, algo contagioso.

           A explicação que os analistas encontram são as seguintes: (1) a América Latina sempre foi uma região politicamente instável; (2) essa instabilidade se deve à pobreza e à desigualdade; (3) a desigualdade e a pobreza se devem à dependência econômica da região; (4) essa dependência se eterniza porque os países latino-americanos são exportadores de matéria-prima (comodities) sem valor agregado e não têm poupança interna, necessitam sempre de investimentos estrangeiros.

               É assim que os especialistas têm explicado o vendaval de protestos (e de golpes de Estado) que pipocaram na América Latina nos últimos anos. Esses especialistas podem até ter razão; creio que ninguém se animaria a contradizê-los – são especialistas, ora bolas!

             Mas uma coisa também deve ser dita: as causas apontadas são estruturais – sempre existiram na região. No entanto, apesar delas, desde a década de 90, os governos populares de esquerda e centro-esquerda conseguiram (1) governar com alguma prosperidade econômica; (2) aumentar o nível de bem-estar de suas populações; (3) manter a estabilidade democrática.

           Desse modo, qualquer explicação sensata para a turbulência que nos atinge neste momento deve levar em conta um outro fator, ou causa, ou concausa: a derrubada dos governos democrático-populares, contrariando a vontade que o povo vem demonstrando nas urnas há mais de 20 anos, está provocando toda essa insatisfação, protestos e instabilidade política.

             Ou seja, enquanto sopraram por aqui os “ventos esquisitos da esquerda”, a América Latina andou em paz, deu até a impressão de que crescia economicamente e que a democracia estava consolidada. Agora, quando sopra o contravento da direita, insuflado pelas elites latino-americanas, historicamente golpistas, antipopulares e aliadas ao imperialismo do Norte, a região voltou a sacudir.

             Essa variável precisa ser considerada, se se quiser entender o que se passa hoje no subcontinente latino-americano; ou seja, temos de incorporar nas nossas análises o fato por demais óbvio de que as elites nativas e o império do Norte, cansados de perder eleições na região, contra-atacaram na base do golpe de Estado; sem considerar esse dado geopolítico as análises ficam capengas, parciais… distantes da verdade.

______________________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s