Chile

          O QUE está acontecendo no Chile?, muitos se perguntam. Milhões de pessoas nas ruas protestando contra o governo; confrontos violentos com a polícia; incêndios e bombas; mortes e prisões (até de crianças). O que, enfim, teria provocado essa convulsão repentina no país vizinho que até ontem era tido como modelo de desenvolvimento e de economia bem-sucedida?

             O que ocorre agora no país andino não é surpresa, não é novidade, tampouco era inesperado ou imprevisível. O que ocorre lá é simplesmente o detonar de uma gigantesca bomba-relógio que começou a ser armada nos anos 70, sob a ditadura de Pinochet.

           Inteiramente submisso ao chamado “Consenso de Washington”, com suas políticas neoliberais de austeridade e privatização, implantadas por sucessivos governos de direta e seus economistas (“Chicago boys”) todos alinhados aos EUA, o Chile passou a subtrair, progressivamente, direitos sociais de sua população – pobres e classe trabalhadora.

         Escancarou sua economia ao capital estrangeiro; sucateou a indústria nacional insistindo no extrativismo primário e exportação de commodities; desnacionalizou o cobre, cujo estoque representa 1/3 das reservas mundiais; privatizou empresas estatais e bancos públicos, chegando mesmo a privatizar os direitos fundamentais à saúde, à educação superior, à moradia e previdência social.

           E o que os chilenos reivindicam agora? Exatamente os direitos que lhes foram tirados pela privatização neoliberal: saúde, educação, moradia, terra, previdência e até a água os chilenos reivindicam – setenta por cento dos aposentados no Chile vivem com menos de um salário mínimo.

              A insatisfação não é de hoje. Em 2014 ocorreram mais de trinta atentados a bomba no Chile. Naquele mesmo ano os estudantes chilenos foram às  ruas contra a política educacional do governo.  As reivindicações dos estudantes incorporaram outras pautas da população, especialmente a agenda ligada à melhoria dos serviços públicos, à nacionalização do cobre e às políticas de saúde, previdência e moradia popular.

            As políticas neoliberais, além de tirar direitos básicos da população, aumentaram a desigualdade no Chile. Em 2014, quando estouraram os primeiros protestos, apenas 12 bilionários detinham 25% do PIB chileno; hoje, os 5% mais ricos têm a mesma renda dos 5% mais ricos da Alemanha.

           A desigualdade, apesar do apregoado “sucesso” da economia chilena, é a mesma da América Latina. Ou seja: a economia ia bem, mas o povo ia mal. Os ricos estavam enriquecendo, os pobres, empobrecendo. Os bancos e rentistas ganhavam, o povo perdia.

           Mas as políticas neoliberais no Chile, até agora, eram intocáveis – um modelo para a América Latina. Nem os governos sociais-democratas  de Michelle Bachelet conseguiram frear os danos dessas políticas. Nesse sentido, a esquerda chilena também tem responsabilidade por esse descalabro social que hoje atinge o povo chileno – especialmente a classe trabalhadora (aí incluída a classe média) e os pobres.

             Muitos acham que esse descalabro pode vir a ser o futuro do Brasil. E pode mesmo. Depois do golpe de 2016, que derrubou uma presidente anti-neoliberal, iniciaram-se as políticas de redução de direitos trabalhistas; sufocação do movimento sindical; subtração de direitos previdenciários; corte de gastos nas áreas sociais; privatização de empresas públicas que geram renda para o Estado (Embraer e subsidiárias da Petrobras); entrega do pré-sal, que seria investido na educação e na saúde etc.

         Há ainda um outro pormenor, que aumenta o medo dos brasileiros: o ministro da Economia Paulo Guedes é um dos “Chicago boys” que trabalharam no Chile implantando as políticas do neoliberalismo. É um vassalo do mercado financeiro. Não há dúvida, portanto, de que seu plano é fazer o mesmo com o Brasil. Logo, nosso futuro tem tudo para ser idêntico à realidade atual dos chilenos.

             No Chile não está havendo apenas protestos e resistência às políticas neoliberais; há um quadro de “desobediência civil”, revelando que o povo se dispõe a ir até as últimas consequências para reaver seus direitos. Tanto que, Sebastián Piñera não apenas revogou o aumento da tarifa do metrô, que foi o estopim dos protestos, como prometeu retroceder em suas políticas de cortes e austeridade fiscal.

               Pode ser que os chilenos façam nas ruas o que não fizeram nas urnas, impondo ao neoliberalismo uma estrondosa derrota. Se isso de fato ocorrer, o Chile, que antes era tido como exemplo de sucesso neoliberal, pode ser agora um exemplo de fracasso do neoliberalismo. Deve, portanto, constituir-se num paradigma de luta e resistência para as classes populares da América Latina… e do resto do mundo.

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