A lógica das privatizações

            NÃO tem lógica – as privatizações constituem um equívoco (econômico, financeiro, social e político) sem explicação. Desde que o neoliberalismo triunfou sobre o Estado de Bem-Estar, a partir dos anos 80, as  privatizações passaram a ser encaradas como a única maneira de dar alguma racionalidade ao Estado e, sobretudo, livrá-lo da praga da corrupção. Terrível engano!

             O Brasil, lamentavelmente, é um emblemático exemplo desse engano. O governo de FHC fez a maior privatização da história do país e, resultado: o país quebrou, mergulhando definitivamente na corrupção; inclusive na corrupção do BNDES que financiou as próprias privatizações subavaliadas. Um absurdo!

       E notemos o tamanho do absurdo econômico e financeiro das privatizações patrocinadas por FHC. Ele privatizou nossas grandes estatais (a Petrobras escapou por milagre!) arrecadando R$ 100 bilhões ao todo, quando elas valiam 2 trilhões de reais. Quem explica?

              Veja agora o Paulo Guedes, ministro de Bolsonaro. Disse que quer “vender tudo”; todas as nossas empresas públicas. Com isso, pretende arrecadar, ao todo, R$ 71 bilhões. Muito bem. Só que apenas 5 dessas estatais que o “chicago boy” pretende vender – apenas cinco, hein: Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, CEF e Correios  – deram no último ano R$ 51 bilhões de lucro.

           Ou seja, com um ano e meio, só essas cinco já terão arrecadado os R$ 71 bilhões que Paulo Guedes pretende arrecadar vendendo tudo. Tem lógica? Alguém minimamente dotado de bom senso, que saiba somar dois mais dois, concordaria com um negócio desses?

        Mais um absurdo das privatizações. A Petrobras, que vai sendo pouco a pouco esquartejada (até não valer mais nada), vendeu o gasoduto do Sudeste (NTS) por R$ 6 bilhões. Muito bem. Só que esse é exatamente o valor que ela, a Petrobras, terá de pagar, em um ano e meio, para usar o gasoduto que era seu. Tem sentido?

           No próximo dia 6 de novembro o Brasil vai presenciar (calado?) outro absurdo das privatizações: o excedente do pré-sal, que segundo a Associação dos Engenheiros da Petrobras vale hoje 3,3 trilhões de reais, será leiloado pelo governo por irrisórios (e inacreditáveis) R$ 106 bilhões.

            Alguém poderia explicar qual a vantagem ou interesse público dessas privatizações? Duvido que alguém explique. Está claro que a vantagem é só do setor privado. É óbvio que gestores públicos andam de conluio com os compradores da coisa pública. As privatizações, essas sim, constituem o maior escândalo de corrupção da história do país.

         Lembremos que a CPI que tentou investigar as privatizações comandadas pelo gângster FHC (CPI da Privataria) acabou corrompida e arquivada.

          O insaciável canibalismo neoliberal, que faz com que as economias periféricas se autodestruam, aportou por aqui com Fernando Henrique Cardoso; teve de conter seu apetite pantagruélico nos anos de governo do PT, que brecou as privatizações; mas voltou agora com tudo, no governo canibal-neoliberal de Jair Bolsonaro.

      O ministro Paulo Guedes é um desses discípulos do chamado Consenso de Washington; guru financeiro do setor privado cujo maior sonho é transformar o Brasil num Chile, que hoje encontra-se convulsionado justamente por causa das políticas neoliberais que ele próprio (Paulo Guedes) ajudou a implantar naquele país.

          É interessante notar que até uma das mais importantes agências do capitalismo neoliberal no mundo, o FMI, já reconheceu o equívoco das privatizações. Reconheceu que elas  aniquilam a capacidade de investimento do Estado, reduzem a demanda, deprimem o crescimento econômico e geram desemprego e desigualdade.

        Mas o Brasil, maior potência econômica da América Latina, resolveu apostar no equívoco, no retrocesso, na cegueira ideológica. No afã de combater o “comunismo”, o governo Bolsonaro pretende retirar o Estado da economia, deixando-a exclusivamente por conta do mercado – quer privatizar tudo.

            Não tem lógica essa sanha privatizante. Ou melhor, é a lógica da destruição. Mas também, o que é que se poderia esperar de um presidente que diz não entender nada de economia? Quem não entende nada de economia não entende nada de política. Quem não entende nada de política deveria procurar entendê-la, ou deixar a política pra quem entende.

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