Amazônia e discurso devastador

           O DISCURSO do presidente brasileiro na abertura da Assembleia-Geral da ONU hoje pela manhã foi, para dizer o mínimo, devastador. Uma saraivada de ataques e mentiras. Em poucos minutos, acabou com qualquer pretensão de mostrar ao mundo que o Brasil é um país comprometido com o desenvolvimento sustentável e a preservação do meio ambiente.

        Já começou mentindo: disse que o governo está trabalhando para conquistar a confiança do mundo, e que o desemprego vem diminuindo no país. Nem uma coisa nem outra: a política unilateralista de Bolsonaro, alinhada aos EUA, está perdendo a confiança do resto do planeta; e o desemprego explodiu, atingindo a taxa de 12%, três vezes maior que nos últimos governos legítimos.

            Continuou mentindo. Disse que os médicos cubanos foram embora do país por ação do governo de Cuba. Os médicos caribenhos deixaram o programa Mais Médicos porque foram ameaçados por Bolsonaro com a prova Revalida. Aliás, expulsar os cubanos era uma promessa do capitão, que os considerava espiões infiltrados.

            Mais mentira: o presidente afirmou seu compromisso com “os mais altos padrões de direitos Humanos”. Falso. Ele passou a vida – e ganhou várias eleições – atacando os direitos humanos; seu lema era “bandido bom é bandido morto”. Um dos primeiros decretos do presidente foi esvaziar o conselho de proteção à criança e adolescente, retirando também as políticas da população LGBT das diretrizes de direitos humanos.

          Bolsonaro disse que seu país esteve “muito próximo do socialismo”. Delírio. O Brasil nunca se afastou do capitalismo selvagem. O presidente enalteceu ainda a ditadura de 64, que teria, segundo ele, derrotado o socialismo e “resguardado a nossa liberdade”. Outro delírio. A liberdade nunca esteve tão reprimida e violada quanto nos tempos da ditadura que ele exalta.

          Agressivo, reservou uma parte de seu discurso tosco e desfocado para atacar Cuba, Venezuela, França, imprensa, Foro de São Paulo, ONGs e índios. Nada a ver com a ocasião. Uma série de ataques gratuitos que só servem para alimentar o som e a fúria de um bolsonarismo estridente, que ignora a realidade e luta contra moinhos de vento.

         O presidente tenta engabelar seus seguidores com o discurso nacionalista em oposição à França de Macron. Apela para a nossa soberania nacional. Mas é puro jogo de cena. Bolsonaro foi o primeiro a dizer que não passava de ilusão dizer que a Amazônia é nossa. E tem mais: não é só Macron que está contra a política ambiental de desmate e desmonte do governo Bolsonaro.

           Tal como a França, a Áustria também propôs a suspensão do acordo UE-Mercosul; a Alemanha suspendeu 155 milhões de reais para o Fundo Amazônia; a Noruega suspendeu outros 133 milhões para esse mesmo Fundo; a Finlândia propôs o boicote à carne brasileira; o Banco Nórdico deixou de comprar títulos da nossa dívida pública… A briga não é apenas com a França ou Macron, como quer fazer crer o capitão.

         O único ministro citado por Bolsonaro na ONU foi Sérgio Moro. O homem que ajudou a elegê-lo e, enquanto juiz, empregava métodos ilegais de julgamento, com o que perseguiu a esquerda brasileira e destroçou nosso sistema de direitos fundamentais, mentindo para a população e enganando até mesmo o STF com suas manobras supostamente jurídicas.

            Ao final de seu discurso – e sem saber o que é, nem dizer qual – Bolsonaro afirma que “a ideologia” se instalou no terreno da cultura, da mídia, da família, da universidade… e na “própria alma humana”, para “expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu”. Sem comentário: essa é daquelas que dão até “vergonha alheia”.

           Sobre o que o mundo de fato queria ouvir, ou seja, sobre as medidas de proteção à Amazônia e ao meio ambiente, Bolsonaro não disse nada – só lero-lero. Nem poderia ser diferente. Ele não poderia dizer que não tem uma política de proteção ambiental, tampouco revelar que esvaziou o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), reduzindo o número de conselheiros de 96 para 23 membros.

            Não poderia dizer que demitiu o diretor do INPE porque ele divulgou os dados reais sobre queimadas na Amazônia. Que exonerou todos os superintendentes do Ibama e ICMBio, entregando esses órgãos ao controle dos militares, para afrouxar a fiscalização e combater o que o presidente considera a “indústria da multa”. Nada poderia dizer sobre o liberação indiscriminada de agrotóxicos no país.

            Não revelaria também que seu desejo era extinguir o Ministério do Meio Ambiente, e só não o fez por pressão de entidades e ambientalistas. Mas colocou no comando dessa pasta um ruralista condenado pela Justiça por fraudes ambientais – verdadeiro desastre (“ecológico”) esse capitão!

            Enfim – nenhuma surpresa. Só mais um vexame. Dentre muitos. Em seu espevitado discurso na ONU, Bolsonaro disse o que não devia, e o que devia dizer, não disse. Em tom agressivo, destilou sua ideologia de extrema-direita do começo ao fim. E no fim, com chave de ouro, o rei das fake news fechou sua peroração dizendo que está “confiante no poder da verdade”. É mole?

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Uma resposta para Amazônia e discurso devastador

  1. Arthur Jacon disse:

    Ansioso pela avaliação do Professor sobre a revelação de Janot.

    Tá difícil de ser Promotor.

    Abs,

    Arthur Jacon

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