Pesquisa e cenários políticos

           SEGUNDO a pesquisa Datafolha divulgada ontem, aumentou a rejeição ao governo de Jair Bolsonaro – o percentual dos que o consideravam péssimo ou ruim saltou de 30% em abril para 38%, hoje. A mesma pesquisa revelou que se a eleição fosse agora Fernando Haddad venceria o pleito em segundo turno, por 42% a 36%.

          Com a votação da reforma da Previdência e a recente crise da Amazônia, que se transformou numa vexaminosa crise diplomática, com possíveis (e sérias) consequências econômicas e comerciais para o país, esse resultado já era mais ou menos esperado – vai ficando cada vez mais claro que o capitão é mesmo incapaz de exercer o cargo para o qual fora eleito.

         Todavia, pelo tanto de confusão e notória incompetência desse governo, apesar do estilo agressivo e muitas vezes vulgar do presidente, a queda de sua popularidade até que foi pequena. Talvez ainda não dê para dizer que essa popularidade esteja em queda-livre; é um declínio paulatino, gradual. Mas – é bom que se diga -, Jair Bolsonaro tem hoje a pior avaliação de um presidente da república em apenas 8 meses de governo.

           Apesar da queda na aprovação do governo, há nessa pesquisa um dado que chama a atenção, sobre o qual gostaria de fazer brevíssimo comentário.

            O percentual dos que consideram o governo de Bolsonaro bom, ótimo ou regular, na pesquisa anterior do Datafolha (em abril), variava entre 32% e 33%. Hoje, esse percentual (dos que aprovam o governo), está entre 29% e 30%. Quer dizer: a avaliação ótima, boa ou regular dá sinais de queda, mas não mudou muito, continua dentro da margem de erro. Quais conclusões se pode tirar daí?

         A primeira, e óbvia: muita gente que votou em Bolsonaro ainda não desistiu do governo. Continua torcendo para que ele dê certo e, assim, justifique seu voto. O fiasco do governo, num certo sentido, respinga e pode parecer um fiasco também de seus eleitores. Esses, portanto, tenderão a manter a confiança, e a avaliação positiva, até o fim… ou até quando der.

            A segunda conclusão é menos óbvia. Pode ser que a mentalidade bolsonarista – de perfil autoritário, branco, machista, homofóbica e racista -, gire mesmo em torno de 30% da sociedade brasileira (e dos eleitores). É um segmento que esteve calado até então, mas ganhou voz com Bolsonaro na presidência.

          Particularmente, não creio que chegue a tanto. A mentalidade de ultradireita pelo mundo afora – salvo nos surtos do fascismo e do nazismo – nunca ultrapassa os 15%, que é uma “taxa normal” de autoritarismo em qualquer sociedade. Como a nossa é uma sociedade autoritária, de raiz colonial e escravista, pode ser que entre nós esse percentual seja um pouco maior – 20%, talvez? Especulo: não há dados objetivos para afirmar isso.

            Mas há ainda uma outra conclusão sobre a pesquisa. Pode ser que esses 30% que apoiam Bolsonaro sejam formados por “bolsonaristas de raiz” – aqueles que pensam como o presidente -, somados à maioria do empresariado, uma parte conservadora da classe média e um contingente de eleitorado lúmpem, que vota “ao sabor do vento”, sem compromisso programático, ideológico, político etc.

        Outra hipótese: dentro desses 30%, mesmo depois dos sucessivos fracassos do governo, está o conservadorismo religioso. Aí entram as igrejas evangélicas (sobretudo as neopentecostais) e um segmento importante do catolicismo, representado especialmente por movimentos como Renovação Carismática, Canção Nova e Rede Vida. Há quem diga que esses setores religiosos deram a vitória a Bolsonaro e não o deixarão tão cedo.

            Se isso for verdade, pode-se concluir que Bolsonaro, ou alguém apoiado por ele, terá presença garantida no segundo turno da próxima eleição presidencial. Por enquanto (claro que esse cenário pode mudar), é lícito concluir que o bolsonarismo ascendeu ao posto de “força política” nacional – goste-se ou não, doravante será preciso lidar com ele.

          Sendo assim, não é absurdo dizer – em cenários de hoje – que as duas forças políticas que disputarão o poder nas próximas eleições serão o bolsonarismo à direita e o lulismo à esquerda – ambos detêm, atualmente, intenções parelhas de voto, em torno de 30%. A diferença é que o lulismo já consolidou esse percentual; o bolsonarismo ainda não, poderá manter-se aí ou despencar.

           Um palpite, que não é, portanto, uma afirmação conclusiva: o bolsonarismo deverá cair bem abaixo dos 30% na preferência do eleitorado, sobretudo entre os mais pobres, e talvez beire os 20%, estacionando nessa faixa.

            Mas, ainda assim, é voto suficiente para pôr a extrema-direita de novo no segundo turno da próxima eleição presidencial. Claro, tem muita água pra rolar. E tudo vai depender da conjuntura econômica, social, política etc., lá na frente. De qualquer forma, a “briga” promete ser boa – espera-se porém que, desta vez, seja uma “briga” limpa, sem ódio, sem fake news e sem obscurantismo.

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