Minimistro

           O ATUAL ministro da Justiça chegou ao governo de Jair Bolsonaro com o status de superministro; dizia-se que teria carta-branca para fazer o que bem quisesse em dois campos: combate à criminalidade e à corrupção. Não fez nem uma coisa nem outra; e pelo jeito vai fazer cada vez menos – há quem diga que o ministro está com os dias contados no cargo.

           No campo do combate à criminalidade, Sérgio Moro não conseguiu sequer aprovar seu plano anticrime, que dirá aplicá-lo – que dirá reduzir a criminalidade. De cara, o próprio ministro cedeu à pressão de políticos, e de seu próprio chefe, retirando do projeto o crime de caixa dois.

           Já no terreno do combate à corrupção foi um vexame ainda maior. Na Esplanada, Sérgio Moro foi recebido pelo chefe da Casa Civil de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, que é réu-confesso no crime de caixa dois, e teve de perdoá-lo publicamente. Disse que o réu estava arrependido e pronto – ficou por isso.

        Ainda nesse campo do combate aos corruptos, Sérgio Moro teve de engolir a corrupção de seu chefe e família. Não investigou o esquema de funcionários-fantasma que o próprio Bolsonaro e seus filhos empregavam em seus gabinetes para embolsar-lhes o salário, quer dizer, desviar dinheiro público.

         Moro não investigou os depósitos feitos em contas da família Bolsonaro, pelo ex-assessor e miliciano Fabrício Queiroz, o homem que, tendo um salário de policial militar, movimentou mais de 7 milhões de reais em três anos e fez depósito, comprovado, inclusive na conta-corrente da mulher de Bolsonaro.

          Não bastassem essas comprovações todas, feitas pelo Coaf, Sérgio Moro ainda teve de engolir o sumiço do Queiroz. Que desapareceu na caradura, nas barbas da sua Polícia Federal, que até ontem demonstrava uma eficácia e uma competência fora do comum, nunca vistas na sua história – sob Sérgio Moro a Polícia Federal definhou.

            Para arrematar, Jair Bolsonaro tirou o Coaf das mãos de Sérgio Moro e cortou-lhe as asinhas. Porque esse órgão investiga um dos filhos do presidente e precisava ser contido. O ministro da Justiça reclamou, mas engoliu o sapo – ficou sem o Coaf e sem instrumentos para combater a corrupção financeira.

            Quando o ministro do STF, Dias Tofolli, proibiu o uso, pelo Coaf, de dados obtidos sem autorização judicial, o que favorecia o filho do presidente, Sérgio Moro, ingênuo, foi reclamar com sua excelência, mas não adiantou nada. E ainda ouviu de Jair Bolsonaro: “Se o senhor não pode ajudar, por favor, não atrapalhe”.

         Depois de derrubar o subsecretário-geral da Receita, o presidente está trocando agora, a seu bel-prazer, o superintendente e até o diretor-geral da Polícia Federal que Moro pôs lá, numa demonstração de que o ministro da Justiça não manda mais nada – é peça decorativa no governo… e já entendeu isso.

         De superministro que era, Sérgio Moro virou miniministro; só não pega o seu banquinho e vai embora porque está esperando o melhor momento para fazê-lo. Já se deu conta de que Bolsonaro se apropriou do discurso de combate à corrupção, usou a imagem de super-herói do ex-juiz, engambelou o eleitorado e agora está combatendo quem combatia a corrupção.

            Na verdade, bem feitas as contas, o superministro nunca foi sequer um superjuiz. À frente da Lava Jato, fez uma aliança espúria com a mídia burguesa que o sustentou anos a fio; teve o apoio da grande burguesia (inclusive bancos que foram poupados pela Lava Jato); fazia acordos com a polícia e com os acusadores para ser bem-sucedido na sua tarefa inquisitorial.

             Como juiz, contrariando a missão constitucional dos juízes, destroçou o sistema de liberdades fundamentais da Constituição; manchou a credibilidade do Poder Judiciário com suas atuações aberrantemente parciais; criminalizou temerariamente a política; destruiu cadeias produtivas da economia nacional e juntou-se ao que há de mais corrupto no governo – não passará de um minijuiz que virou miniministro.

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