Afinal, quem elegeu Bolsonaro?

           O CAPITÃO foi eleito pela elite; pela parte mais conservadora da classe média; pelo voto em massa dos evangélicos; e por setores das classes de baixo, em especial nos espaços e bolsões onde as igrejas evangélicas neopentecostais exercem forte influência. O presidente obteve votos, como se vê, em todas as classes.

           O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas de intenções de voto – e depois sua efetiva votação em 2018 -, chama a atenção: em meados de 2016, dois anos antes do pleito, Bolsonaro “corria por fora” – nem ele acreditava na sua candidatura – tinha só 3% das intenções de voto – era então um candidato folclórico do chamado baixo-clero.

         Por alguma razão, entre junho de 2016 e final de 2017, portanto, um ano e meio depois, aquele percentual de 3% saltou para 11%. Quadruplicou. No início da campanha eleitoral em agosto de 2018, Bolsonaro já tinha 15%. Quintuplicou. Com o lançamento da candidatura de Lula, pulou para 20%. Sextuplicou. Perto da eleição tinha 31% das intenções. Decuplicou.

           Finalmente, no primeiro turno, o capitão obteve a marca de 46% dos votos válidos; no segundo, conquistou a vitória definitiva com 55% desses votos.

       Nota-se que, mesmo antes de iniciada a campanha eleitoral a candidatura de Bolsonaro vinha tendo um crescimento contínuo e atípico – pode-se dizer, vertiginoso. Com o início da campanha no rádio e na tevê, imaginava-se que Alckmin iria crescer e Bolsonaro, cair. Negativo. A candidatura do tucano desidratou e a de Bolsonaro, subiu. E foi subindo até a vitória no segundo turno sobre Fernando Haddad.

      Talvez seja por isso, por causa desse crescimento inesperado e ininterrupto da candidatura de Bolsonaro, que o chamam de “mito”.

           Mas qual a explicação para esse fenômeno?

          O eleitorado foi seduzido pelo programa de governo de Bolsonaro? Não. Bolsonaro não tinha programa (repetia apenas um discurso genérico anticorrupção e antiviolência). O eleitor deixou-se levar pelas realizações políticas do capitão deputado? Também não. Bolsonaro, com 27 anos de Congresso, nunca teve um projeto relevante aprovado. O eleitorado se encantou com a retórica do candidato? Não. Seu discurso era agressivo e a fala muito rápida, atropelada e irregular, quase incompreensível – taquifêmico.

         O que explicaria, então, a preferência crescente e inabalável do eleitorado pelo candidato que não tinha programa; não apresentava nenhuma realização no campo político; não tinha ou não conseguia expor suas ideias?

             Duas coisas: primeiro, o antipetismo. Que era “alimentado” diariamente pela Lava Jato e pelo bombardeio moralista da mídia burguesa contra o Partido dos Trabalhadores e contra Lula, especificamente.

        Segundo, o fato de Jair Bolsonaro ter conseguido passar-se por um candidato  antissistema e anticorrupção. Em boa medida, esta última estratégia foi facilitada porque o capitão realmente nunca havia feito nada na política, parecia ser mesmo alguém “de fora” – não tinha nem partido.

       Dessa forma, captou o voto do eleitor indignado com o que chamavam de “a roubalheira do PT”, bem como o do eleitor desejoso de mudança; era o chamado voto plebiscitário ou voto-protesto. Quando a Lava Jato prendeu Lula – o único capaz de vencer o capitão nas urnas -, Jair Messias Bolsonaro foi catapultado para dentro do Palácio do Planalto; tornou-se imbatível, surfando sozinho nas ondas do “lavajatismo”!

        Paralelamente, os correligionários de Bolsonaro travavam uma guerra digital na internet (WhatsApp, Facebook e Twitter). O candidato da ultradireita soube, primeiro que seus concorrentes, usar essas ferramentas tecnológicas. Os disparos em massa, o uso de “bolts” (robôs), e a formação de uma legião espontânea de seguidores consolidaram a vantagem do ultradireitista.

      Nesse meio-tempo, vieram os disparos em massa das fake news atribuindo imoralidades ao candidato petista Fernando Haddad, e propagando também que poderia haver uma fraude nas eleições em favor do PT – muitos acreditam nessas duas coisas até hoje.

        Quando o jogo já estava completamente favorável ao capitão, veio a facada. Esse episódio teve três efeitos altamente favoráveis ao candidato da ultradireita: (1) causou comoção e despertou simpatia (“coitadismo”) pela vítima; (2) impediu que seus adversários “batessem” nele; (3) permitiu que Jair Bolsonaro não participasse dos debates, quando seria fatalmente “desconstruído” por seus opositores.

           No dia do atentado, Bolsonaro tinha 21% das intenções de voto; cinco dias depois, tinha 24%; dez dias após, tinha 27%; com vinte dias, chegaria aos 31%; no dia da eleição, foi para o segundo turno com 33% dos votos. (Dados extraídos do livro Eleição disruptiva… ed. Record). Consta que, internado num hospital de São Paulo, o capitão teria dito a um dos coordenadores de sua campanha: “Estou eleito, não precisamos fazer mais nada”.

            Conforme se vê, uma eleição atípica como essa contou com a convergência de vários fatores, que dificilmente se repetirão em outros pleitos: (1) atuação seletiva da Lava Jato contra o lulo-petismo; (2) bombardeio moralista da mídia contra o PT e os petistas; (3) uso inédito das ferramentas digitais; (4) utilização de robôs e disseminação de fake news; (5) episódio da facada.

          É certo que todos esses fatores concorreram para a eleição de Jair Bolsonaro. Mas, dentre eles sobressai a atuação da Lava Jato. O “lavajatismo” foi a força ou movimento político que se opôs ao “lulismo”. Nessa última eleição, os partidos ficaram de fora – o embate foi: lavajatismo versus lulismo. A Lava Jato tinha a caneta do Judiciário na mão, prendeu seu adversário e decretou o resultado das eleições.

          Na verdade – e em resumo – o decisivo para a eleição “mítica” de Bolsonaro foi a parceria Lava Jato/Mídia. Sem a mídia, a Lava Jato não teria a força política que teve para neutralizar o lulismo; sem a Lava Jato, a mídia não teria a força coercitiva do Judiciário para tirar da disputa o único candidato que poderia vencer Jair Bolsonaro.

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