Pacto do isolamento

            O NOME que deram é “Pacto Republicano”, mas de republicano ele não tem nada. Esse acordo, entre os três poderes – Presidência da República, Congresso e STF -, para assegurar as macrorreformas e a governabilidade do país, é na verdade um pacto antirrepublicano; pois é antipopular e antidemocrático – não há República (res publica) sem democracia e sem povo.

        O que querem com essa história de pacto? Enfiar goela abaixo do povo brasileiro a reforma da Previdência, que penaliza os mais pobres, as mulheres e os trabalhadores do campo? Cortar gastos na área social? Privatizar o que resta e o que for possível do Estado brasileiro? Consolidar a entrega de nossas riquezas naturais (petróleo, nióbio, outros minérios e até a água)?

          Só que é difícil fazer pacto com o Bolsonaro. O presidente da Câmara dos Deputados, depois das manifestações pró-governo do último domingo, disse que foi traído na internet e não confia mais no presidente.

          A grande mídia também ainda não “avalizou” o pacto. Acha que o chefe do executivo até agora não deu mostras de que seja capaz de estabelecer (e honrar) um acordo desses. Em editoriais, os grandes veículos de comunicação têm sinalizado que o único pactuante realmente comprometido com as reformas é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

           Isolado politicamente, o capitão resolveu apostar no “coitadismo”.

         Em um evento na Embratur disse que está recebendo ameaças. Perguntado depois, pelos jornalistas, sobre quem é que o estaria ameaçando, o presidente não soube dizer. Na mesma ocasião, disse que tem muita gente querendo tirá-lo do cargo (ah, isso tem!), mas também não disse quem é que quer defenestrá-lo.

        Por fim, queixou-se de que se sente vivendo “em prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica”. Essa talvez seja a metáfora mais fulgurante de seu isolamento político. Não tem diálogo com o Congresso; ataca a oposição; está em guerra com a imprensa; não tem base aliada consistente; perdeu a confiança do mundo político e está perdendo também a do mercado.

         O desempenho da economia poderia salvá-lo. Mas como, se está se desenhando no cenário internacional um quadro de profunda depressão e aqui dentro o PIB está despencando? Dólar nas alturas. Pra piorar esse quadro, Bolsonaro não tem plano econômico; só reforma reforma reforma-  ninguém aguenta mais ouvir falar em “reforma da Previdência” como motor da economia.

          Cadê providências para alavancar o crescimento, gerar emprego,  expandir mercado (interno e externo)… cadê? Não tem. O papo é um só: reforma da Previdência, reforma dos ministérios, reforma administrativa… isso não enche barriga. O presidente não vai impulsionar nenhum crescimento econômico sem investimento público: na infraestrutura, no crédito industrial, no crédito popular, na tecnologia etc.

          Não precisa ser economista para saber que nenhuma economia do mundo consegue sair de crises profundas sem investimento estatal. Vide, no pós-guerra, o que foram o New Deal nos EUA e o Plano Marshall na Europa, para reerguer aquelas economias devastadas pela Segunda Grande Guerra – sem o Estado não haveria recuperação econômica nenhuma.

          Aqui no Brasil, estão fazendo exatamente o contrário: rebaixam o poder de compra dos salários (deprimindo o consumo); demonizam o BNDES (deprimindo a empresa); deixam os juros lá em cima (inviabilizando o crédito); destroçam o setor da construção pesada (com a colaboração decisiva da Lava Jato!); cortam investimentos em infraestrutura… enfim, adotam políticas recessivas para combater recessão – erro crasso, contradição histórica.

           Uma pesquisa Ibre/FGV constatou que 90% dos países emergentes investiram mais que o Brasil em 2018. Resultado: todos eles tiveram crescimento econômico superior ao crescimento brasileiro no mesmo período. Precisa mais o quê para enxergar que sem investimento público o país não vai sair de crise nenhuma?

            No entanto, o presidente só fala em cortes, em reformas, em contenção de gastos e… claro, em armas. Vai isolar-se também em face dos países emergentes. Encostou nos EUA, adotou uma política externa unilateral, unipolar, e quase destroça as parcerias comerciais como árabes e chineses – um isolamento desastroso.

          Se continuar assim, daqui a pouco o presidente – na sua solitária domiciliar – vai fazer pacto apenas com sua turma. Essa mesma que anda aí nas ruas e nas redes a dizer que a reforma da Previdência vai gerar emprego e salvar a economia brasileira – é a turma da terra plana; do criacionismo bíblico e do “olavismo cultural”. Haja paciência com essa militância de sofá!

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