O grande conchavo

    CORTARAM as asas do capitão! Incapaz de governar, Bolsonaro enveredou perigosamente pelo caminho do ataque a diversas instituições essenciais à democracia: Congresso Nacional, Suprema Corte, partidos políticos, conselhos populares, imprensa tradicional, universidades públicas etc.

        Além desses ataques sórdidos, radicalizou sua pauta autoritária e chegou a sugerir que, para governar o país (“sem conchavo”), somente se houvesse uma “ruptura institucional”. Nessa linha, muitos de seus apoiadores – tão ou mais doidos que o chefe – já estavam invocando o art. 142 da Constituição Federal para embasar juridicamente um golpe militar.

        Apoiado por setores do aparelho repressivo do Estado, por grupos extremistas que surgir am no ambiente digital (milícias digitais), por alguns empresários autocratas e pela “direita religiosa” (igrejas neopentecostais e setores da igreja católica), o capitão se sentiu animado o bastante para confrontar as instituições democráticas e, quem sabe, impor um regime “bonapartista”, “cesarista”, policial-autoritário.

      A velha direita, com sua retórica e seus pruridos pretensamente liberais, sentiu o perigo, uniu-se e cortou as asinhas da extrema-direita iliberal.

        Grande parte do empresariado (Fiesp à frente); a mídia tradicional (Rede Globo no comando); alguns grupos liberais e representantes da chamada “nova direita” (Instituto Millenium, Instituto Liberal, Vem pra Rua, MBL etc.); muitos eleitores; parlamentares da confusa base aliada do presidente; e até seu partido (PSL) se negam a apoiar as reivindicações autoritárias do bolsonarismo/bonapartismo.

         Bolsonaro ficou sozinho. E com risco de impeachment. As manifestações do dia 15 revelaram que ele não tem mais o respaldo maciço das ruas; as investigações do Ministério Público estão chegando à família presidencial; uma pesquisa realizada nesta semana (Atlas Político) constatou que, pela primeira vez, a reprovação ao presidente é maior do que o apoio – popularidade ladeira abaixo.

       Diante de tudo isso, o capitão capitulou: ele havia cogitado ir pra rua no próximo domingo, nas manifestações em prol de seu governo, mas foi dissuadido da ideia e já disse que vai ficar em casa; recomendou também a seus ministros que não participem das passeatas.

      Mas há outras capitulações: o guru Olavo de Carvalho fechou o bico; os militares acalmaram-se com o bico fechado do guru-astrólogo; os filhos do presidente baixaram a bola nas redes sociais; o presidente voltou atrás quanto ao decreto do armamento, e, depois dos protestos do dia 15, liberou dinheiro para a educação (21% da verba cortada).

       Por fim, deve-se destacar uma outra capitulação do presidente – esta bem mais sugestiva: ele baixou o topete e, finalmente, reuniu-se com um representante executivo daquela que havia elegido como sua inimiga número-um: a Rede Globo.

           A direita tradicional em seu liberalismo de fachada vinha estranhando as maluquices e o “iliberalismo autoritário” da extrema-direita bolsonária.

        Mas, apesar desse estranhamento, há uma pauta comum a essas duas vertentes da direita, que une os conservadores: a pauta econômica neoliberal. É em torno dela que, doravante, a direita e a extrema-direita voltam a se dar as mãos – eis aí o “grande conchavo” que vai colocar Bolsonaro mais ou menos nos “trilhos” e evitar seu impeachment precoce.

      Só que essa pauta econômica, a ser tocada pelos conservadores neoliberais, é um desastre para o Brasil e para os brasileiros; é pior do que as presepadas do Bolsonaro, do Olavo e dos olavetes, da Damares, do Weintraub, do Ernesto Araújo e cia.

        Primeiro porque ela é mesmo uma pauta “entreguista”: o petróleo já foi embora; a Embraer (estratégica) foi comprada pela Boeing; A Amazônia e sua biodiversidade, Bolsonaro disse que não é nossa;  hoje começa a venda da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras; em seguida vai a Eletrobras e depois os bancos – se deixar por conta do Paulo Guedes, ele funde o Banco do Brasil com o Bank of America, e “vende tudo o que é nosso”.

      Segundo, a pauta neoliberal é, sim, “antipopular”, penaliza os pobres e a classe trabalhadora: os direitos trabalhistas da CLT já foram flexibilizados; o salário mínimo não terá mais aumento real, só correção inflacionária; a previdência está em vias de ser privatizada (regime de capitalização pelos bancos) e desconstitucionalizada – não será mais um direito constitucional.

         Terceiro, essa pauta é perversamente “antissocial”, pois, em nome da austeridade (que muitos – com razão -, chamam de “austericídio”), o que se corta são apenas os investimentos na área da saúde, educação, assistência, moradia e infraestrutura – investimentos esses que já estão congelados por 20 anos (EC 95 – Pec do Teto ou do Congelamento).

        Por fim, ela é “antieconômica”, pois (pergunte a qualquer economista sério!) o país não terá crescimento econômico sem investimento público do Estado. (Sempre foi assim no mundo inteiro.) E dinheiro para investir, apesar da crise, o Estado tem. Pesquise (na internet ou onde for): o Tesouro Nacional e o Banco Central, juntos, detêm hoje 3 trilhões de reais em caixa; e isso, sem contar as reservas internacionais.

      Sabe por que esse dinheiro não é utilizado para alavancar a economia? Consulte qualquer economista (sério) da sua confiança: ele vai dizer que essa grana está reservada para remunerar a sobra diária de caixa dos bancos e pagar os juros extorsivos da dívida pública – entendeu agora por que bancos no Brasil têm os maiores lucros e nunca entram em crise, como aconteceu nos EUA?

           Pois é em nome disso tudo que a direita brasileira – derrotada inesperadamente nas urnas pela extrema-direita de Bolsonaro – quer agora fazer um grande “conchavo” com o capitão: afasta-se o risco do impeachment; o presidente, em contrapartida, modera seus arroubos extremistas e controla os malucos do seu governo; e, no final das contas, quem paga o pato é mesmo o povo, a nação: eu, você, nós…

______________________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s