Mito é mito

          DIZ o Ibope, numa pesquisa divulgada hoje, que o governo Bolsonaro é aprovado por um terço dos brasileiros (35%). Constatou-se também que 31% o classificam como “regular”. Dentro da margem de erro, essa pesquisa confirma o que já revelara há poucos dias o instituto Datafolha – 33% de aprovação popular. É alta essa aprovação, altíssima; e por quê?

        Cabe, sim, essa pergunta: por que o governo Bolsonaro é aprovado, e regularmente bem-avaliado (ou tolerado), por nada mais nada menos que 66% dos brasileiros ouvidos na pesquisa do Ibope? A pergunta se justifica porque nesses quase quatro meses de governo Jair Bolsonaro nada fez e só acumulou trapalhadas.

          Olhemos o governo e o governante.

         Quais os planos do capitão e sua equipe em relação à economia, que se encontra em frangalhos? Nenhum; só a tempestuosa reforma de Previdência que, na verdade, não é plano econômico, e tenderá a agravar ainda mais os problemas da economia. Crescimento zero e desemprego em alta. Quais as medidas econômicas até aqui tomadas para reverter esse quadro? Nenhuma.

          Na educação, fez o quê, o governo Bolsonaro? Nada, a não ser desarticular o MEC, militarizar completamente esse Ministério, congelar verbas (25% do orçamento), perseguir universidades e cortar dinheiro das pesquisas, ciência e tecnologia, sob o argumento boçal de que a universidade pública não faz pesquisa nenhuma.

            Outra área sensível: saúde. O que fez o governo Bolsonaro? Nada, a não ser congelar verbas e cortar as contingenciáveis. Acabou com o Mais Médico sem conseguir apresentar uma alternativa; cortou verba de saúde para atendimento de indígenas; desarticulou o programa de saúde mental; desmontou a transparência e o planejamento do SUS; e já afirmou que o SUS deverá ter uma redução de 50% no seu orçamento.

           E na política externa, o que se teve? Só vexame. Atendendo às determinações de seu guru-astrólogo Olavo de Carvalho, o presidente pôs no Ministério das Relações Exteriores um homem cujo único plano é combater o “marxismo cultural”, que ninguém sabe o que é. Já acumulou conflitos com o mundo árabe, com sérios prejuízos para nossas relações comerciais.

          Em Davos, o chanceler nem apareceu, deixou que Bolsonaro escancarasse ao mundo sua falta de planos, a incompetência e o despreparo do governo atual – até o mercado, a direita e a mídia reconheceram isso.

           Na área de segurança, o que fez o governo? Nada. Limitou-se a apresentar um plano requentado pelo ministro Moro, que já havia sido concebido no governo Temer, e que, segundo estudiosos, não passa de retórica populista – com potencial para aumentar o poder das milícias, a violência policial e, consequentemente, a insegurança pública.

         O governo fez alguma coisa na área do combate à corrupção, que era o grande mote de sua campanha? Não fez nada; nem sequer explicou as verbas públicas utilizadas pelo presidente e seus filhos em campanhas políticas; não explicou o dinheiro suspeito na conta da primeira-dama; tampouco desembaraçou-se do “laranjal” que financia seu partido e alguns ministros.

        (Um parêntese sobre corrupção: enquanto Lula foi acusado, condenado e preso em seis meses – tempo recorde -, o motorista e assessor da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, faz seis meses que não atende ao Ministério Público para explicar as movimentações suspeitas levantadas pelo COAF.)

          O governo é isso, vejamos agora o perfil do governante.

      O capitão Jair Bolsonaro é um político antidemocrático? É. Vive tecendo loas à ditadura militar; enaltece torturadores e grupos de extermínio; persegue adversários políticos; defende milícias; já falou em fechar o Congresso; extinguiu os mecanismos de participação social no poder; militarizou completamente seu governo – algo incompatível com a democracia.

      O capitão é racista? É. Já discriminou, até publicamente, negros e índios. Ele é homofóbico? É. Usa conceitos cristãos para discriminar famílias e indivíduos LGBTs e se declarou contra a criminalização da homofobia. O presidente é misógino? Claro que é. Já foi até processado por agredir a honra de uma ministra, e disse que sua filha mulher foi uma “fraquejada”.

     Por acaso, apesar de tudo isso, o presidente Bolsonaro deu mostras de sua competência político-administrativa? Não. Começa que não tem partido. Sua base política no Congresso está completamente desarticulada, a ponto até de pôr em risco a reforma da Presidência. Termina que não tem plano de governo, o país está politicamente paralisado – dá a impressão que o plano de Bolsonaro é a ditadura.

          E como é que se explica, então, a altíssima aprovação desse governo por um terço dos brasileiros, e por mais um terço que o qualifica como “regular”? Não sei, não se sabe. Deve ser porque mito é mito e pronto, tá acabado. Não se discute: a função do mito é só fascinar, entorpecer, paralisar…

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