O mundo sem política

     A DEMOCRACIA está em risco – e dizem que é assim no mundo todo. Segundo observadores, houve uma súbita ascensão da extrema-direita que tem ameaçado as mais sólidas conquistas do liberalismo político, conquistas que hoje se supunham não apenas duradouras, mas definitivas.

       Dentre essas conquistas, menciona-se a liberdade ir e vir (basta dizer que ela está seriamente restringida e controlada, por exemplo, naquela que é tida como a maior democracia liberal dos tempos modernos – os Estados Unidos). O mesmo ocorre com a liberdade de informação, a liberdade de expressão e ensino, a soberania popular e o direito à privacidade.

          (E olhe que ainda não se está falando aqui das chamadas liberdades socioeconômicas e culturais; só nas liberdades civis e políticas – direitos liberais de primeira geração.)

     O que estaria havendo com a democracia?, perguntam-se os doutores. Ninguém responde com certeza. Especula-se, apenas. Mas há um consenso de que a democracia falhou; ou teria chegado ao seu limite: viveria apenas um momento ocasional de crise ou seria o seu fim?

           Não há dúvida de que a democracia liberal representativa está em crise. E um desses motivos é justamente sua falta de representatividade: partidos já não fazem mais a mediação entre a sociedade civil e o Estado; nem sempre representam a vontade, os anseios e os interesses de toda a sociedade – daí o desencanto.

           Mas há outros motivos para o desencanto. A democracia liberal burguesa está muito financeirizada, dominada pelos negócios. É naturalmente financiada pelo dinheiro dos endinheirados, o que a desfigura como governo do povo, qualificando-a como governo dos ricos – plutocracia.

           E há mais: os governos estão manietados por grandes corporações econômicas – do mundo financeiro (bancos e fundos), do mundo produtivo (monopólios multinacionais) e do mundo digital (monopólio das grandes empresas cibernéticas – notadamente Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft).

         Os governos podem pouco diante dessas corporações econômicas – são reféns delas. Algumas multinacionais conseguem intervir politicamente de maneira tão acentuada que são capazes de tornar um país ingovernável – e de derrubar governos. Os governos, por sua vez, muitas vezes prometem o que não podem cumprir e acabam desmoralizando ainda mais a democracia.

          Daí a desconfiança popular, que está se transformando em ódio – ódio político e ódio à democracia. A extrema-direita tem sabido capitalizar esse desencanto e faz de conta que está fora do sistema político que ela domina; finge que é uma alternativa antissistêmica (nos EUA a direita radical é chamada de Alt-Rigth; pelo mundo afora é conhecida como Nova Direita).

         Estamos vivendo, portanto, um momento populista; em vias de se transformar numa “era populista”, liderada pela direita radical, que pode pôr em xeque a sobrevivência da democracia liberal representativa. É isso o que adverte Yascha Mounk no seu primoroso livro O povo contra a democracia, editora Cia. das Letras.

         Uma propaganda antipolítica e antissistêmica está levando o povo a se pôr contra o governo do próprio povo – paradoxo (ou contradição) inexplicável. E a ferramenta utilizada é o discurso do medo e do ódio: um discurso, neural ou neuronal (ou neocortical) que mobiliza as emoções mais rebaixadas para despertar a raiva contra tudo o que vem da política, numa espécie de “suicídio político”.

      A internet são inventou esse ódio, mas tem sido, sim, um terreno fértil para a sua propagação, via mensagens (geralmente rasas e desinformadas) que despertam (e alimentam diariamente) sentimentos de irritação, cólera e intolerância contra a política, os políticos e os que divergem politicamente.

          As pessoas estão vivendo em “bolhas” de informação que limitam muito sua visão de mundo, bem como a capacidade de interagir nesse mundo por meio do diálogo e do debate político. É a rejeição pura e simples do “outro”, do “diferente”, do “divergente” – isso explica em boa medida as polarizações e rivalidades no campo ideológico.

        As mensagens políticas que circulam na internet constituem verdadeiro monólogo: dentro das “bolhas”, vítimas de um perverso “enquadramento mental”, as pessoas recebem só as mensagens (algorítmicas) que reforçam suas convicções – é o chamado “viés de confirmação”; não se submetem, portanto, ao contraditório nem ao pluralismo das ideias, coisas essenciais a qualquer democracia.

        O problema é que a rejeição ou morte da política, do diálogo e da tolerância é uma aposta muito arriscada; mas é a aposta das grandes corporações econômicas, politicamente reacionárias, que sonham com um capitalismo sem política, simplesmente administrado – os novos governantes do mundo (não eleitos) serão os executivos e CEOs.

        É muito sintomático, e preocupante, que o presidente do Brasil – ele próprio um político, com todos seus “garotos” metidos no meio político -, tenha dito na posse do novo ministro da Educação que quer “uma garotada que comece a não se interessar por política”.

         A frase é estúpida, mas pode ser emblemática de um tempo, de uma era em que a extrema-direita, sonhando com cidadãos passivos e conformados, pretende impor um mundo sem política, sem democracia e sem partilha de poder – ou seja, um mundo apenas gerido e vigiado.

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http://www.avessoedireito.com

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