Estão matando a verdade

       FAÇA-ME o favor!, o presidente da república dizer que “o Exército não matou ninguém”, depois que soldados do Exército fuzilaram o carro de uma família, com oitenta tiros, e mataram o inocente pai que estava no automóvel, francamente, é no mínimo um escárnio; um deboche.

           E para completar, ainda vem o ministro da Justiça, feito boneco de ventríloquo de seu chefe, dizer que esse fuzilamento, e a morte do pai de família, foi apenas um “incidente lamentável”. Tenha dó, ministro: o nome disso é tragédia! Vamos combinar: ou esse povo é doido ou acha que todo mundo endoidou, que todos perderam a lucidez.

         Onde já se viu uma história dessas?! O Exército, por meio de seus agentes, matou, sim, o músico Evaldo Rosa. E matou violentamente. A justificativa é que foi engano. Ah, tá!, foi engano. Só que – alguém já disse -, o Exército e a polícia do Rio de Janeiro vêm matando há muito tempo e nunca se enganam quanto à origem socioeconômica e a cor da pele de suas vítimas.

          Em vez de reconhecer a gravidade do fato; admitir que houve evidente truculência por parte dos policiais; dizer – nem que fosse só para demonstrar algum senso de responsabilidade – que o fato será devidamente apurado e que os responsáveis serão punidos nos termos da lei, presidente e ministro, muitos dias depois, vêm dizer que o Exército não mata e que o caso foi só um incidente.

         O Exército mata, sim, e esse caso do Rio foi um crime hediondo; uma execução fria em tempos de paz – só se vê isso na guerra; e mesmo assim, na “guerra suja”. Não há discurso negacionista nem linguagem enfeitada que mude os fatos nem essa medonha realidade.

            Estes tempos andam estranhos demais. Muitos têm alertado para o fato de que uma das características destes “tempos estranhos” é a “morte da verdade”.

         Exatamente com esse título, A morte da verdade – notas sobre a mentira na era Trump, Michiko Kakutani, crítica literária do The New York Times há 40 anos, publicou livro apontando que, em nosso tempo, realmente, o “descaso com os fatos” e a “corrosão da linguagem” estão diminuindo o valor da verdade.

           Onde e por que isso aconteceu?, por que estão matando a verdade?

      Andam negando o Holocausto judeu na Segunda Grande Guerra; difamando as vacinas; sustentando que a Terra é plana; apregoando que o aquecimento global é coisa de marxista; negando a confiabilidade de urnas eletrônicas nas eleições; atacando a ciência e os cientistas… Enfim, andam plantando “fake news” e “fatos alternativos” a torto e a direito.

       Nos Estados Unidos, até hoje muita gente acredita que Barack Obama nasceu no Quênia e, portanto, não é norte-americano. Ainda acreditam que Saddam Hussein tinha arma química. Donald Trump queria prender Hilary Clinton e, na internet, acusava-a de ser cúmplice do escândalos sexuais de seu marido. Tudo coisa sem pé nem cabeça – Trump é troll.

          Aqui no Brasil, parecem que as coisas estão tomando esse mesmo rumo – do delírio: o atual presidente diz que o nazismo era de esquerda; nega que tivemos golpe e ditadura militar em 64; afirma que os negros são culpados pela escravidão; que os índios são latifundiários… e há gente crédula o bastante para acreditar nessas asneiras todas.

        Agora há pouco, o ex-ministro da Educação queria reescrever os livros de História para dizer que não houve ditadura no Brasil. O atual chefe do MEC, que também enxerga comunismo em todo canto, até na cúpula dos bancos, já disse que na Universidade brasileira só tem professor marxista.

         Coisa de louco! Quando muito, o que há na universidade são professores que estudam a obra de Marx porque não é possível ignorá-la; não é possível entender o capitalismo sem as contribuições teóricas desse pensador alemão – essa é a verdade; queiramos ou não. É falso que as universidades brasileiras estão “infestadas” de marxistas; só diz isso quem nunca pôs os pés lá – ou pôs os pés, mas não o cérebro.

          A quem interessa a mentira? A mentira, a distorção da realidade, interessa muito aos inimigos da democracia.

       Em todos os regimes fascistas, a primeira vítima é sempre a verdade. Ao tempo de Hitler, o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, costumava dizer que “uma mentira repetida cem vezes torna-se verdade”; pode ser que as mentiras do nosso tempo sejam um sinal de que o fascismo está rondando de novo – se estão matando a verdade, podem crer que a próxima vítima será a democracia; se é que ela já não foi pro beleléu.

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