A franqueza do presidente

         SE até o próprio Jair Bolsonaro diz que não serve para ser presidente da república, quem é que vai dizer o contrário? É surreal: o cidadão se candidata, diz que vai acabar com a violência, com a corrupção, que vai destravar a economia e fazer o país crescer, promete mundos e fundos e, depois, com menos de três meses no governo, descobre que não serve para o ofício?

        O ex-capitão disse que não nasceu pra ser presidente, e, sim, militar. Mas não é exatamente isso o que pensa o Exército brasileiro, que o expulsou de seus quadros. Para o Exército, portanto, Jair Bolsonaro está equivocado quanto à sua vocação profissional – não serve para ser militar também.

          Mas o presidente andou dizendo outras besteiras nesse sentido: afirmou que presidir o Brasil é um grande “abacaxi”, e que, graças a Deus, vai ficar por pouco tempo no cargo que o povo lhe outorgou; pra arrematar, disse que está apenas “tocando o barco”, ou seja, fazendo hora na presidência.

      E não parou por aí. Numa solenidade pública com profissionais da imprensa, referindo-se à sua chegada ao Palácio do Planalto, disse que “se deu mal”. Bem-humorado, virou-se para o ministro Sérgio Moro, que estava a seu lado e disparou: “Pode pegar o meu lugar!”.

          Tudo isso ocorreu às vésperas da divulgação de uma pesquisa Datafolha revelando que 30% dos brasileiros reprovam – como ruim ou péssimo -, o neonato governo de Bolsonaro. Ou seja, é o início de governo (três meses) mais mal-avaliado da história do país. Um recorde absoluto.

           Pesquisas anteriores já haviam apurado a vertiginosa queda de 15% na popularidade do presidente. Agora, constata-se que até seus eleitores (metade) já não confiam mais no comandante. Quer dizer: se a eleição fosse hoje, Jair Messias Bolsonaro não seria eleito; talvez nem fosse para o segundo turno. Mas agora é tarde.

         Pouco a pouco, Bolsonaro vai voltando a ser o que sempre foi; vai retornando ao seu verdadeiro lugar – de onde ele próprio acha que nunca deveria ter saído. Um candidato de extrema direita como ele raramente teria chance de chegar à presidência da república num país democrático – no mundo todo, conservadores extremistas nunca superam o patamar de 10 a 12% por cento do eleitorado.

       O que aconteceu no Brasil foi que, primeiro destruiu-se a democracia; abriu-se caminho para o discurso ultrarreacionário; manipulou-se midiaticamente a lenga-lenga da corrupção para impedir a continuidade de um governo de extração popular, propiciando-se, com isso, as condições políticas para a ascensão de um candidato folclórico, autoritário e sem programa de governo.

       Que o capitão era um político inapropriado para governar nosso país, continental e complexo, seu currículo já o dizia: tratava-se de um deputado do baixo clero que nunca foi levado a sério por seus pares. Que nunca apresentou um projeto de lei que justificasse seus trinta anos no Congresso. Que tinha um discurso neofascista e politicamente tosco.

            O que surpreende agora é que o próprio Bolsonaro se encarregue de dizer, ao vivo e em cores, que não serve para ser presidente da república; que a presidência é um “abacaxi”; que ele “se deu mal” com sua eleição; e que não vê a hora de pular fora do barco, que vai tocando só por tocar.

          Imagino a decepção dos muitos que confiaram no candidato e quase se estapearam em defesa dele nas ruas e nas redes!

       Não precisava tanta franqueza; Bolsonaro poderia evitar declarações assim, que parecem verdadeira traição ao seu eleitorado. Poderia muito bem descascar o “abacaxi” em silêncio; guardar para si a decepção com o cargo que ganhou nas urnas; e “tocar o barco” discretamente – em respeito aos brasileiros, aos seus eleitores e àqueles que financiaram sua campanha.

       Com efeito, bem que o presidente poderia ser um pouco mais arguto; se não mais sensato, pelo menos mais sagaz. Ou, se fosse o caso, poderia ao menos bancar o sagaz. Nem que fosse só pra disfarçar, pra inglês ver. O problema é que Bolsonaro está voltando a ser o Bolsonaro. E a argúcia e sagacidade, ainda segundo a pesquisa do Datafolha, também não são o forte do presidente.

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