Democracia ameaçada

      ATUALMENTE, percebe-se uma inquietante preocupação com a democracia no mundo. Há uma percepção mais ou menos generalizada, entre teóricos e políticos, no sentido de que a democracia liberal representativa não só está em crise como está também seriamente ameaçada de extinção.

          Essa crise certamente não é nova. Não se instalou de súbito, da noite pro dia. Mas a percepção dela cresceu e se fez sentir com mais enfase só agora. Sobretudo depois da eleição de Donald Trump, um populista de extrema-direita, para comandar a maior e uma das mais antigas democracias do mundo burguês.

          Alguns chegam até mesmo a dizer que a democracia representativa não passa de uma fachada – já não existe mais: porque os tradicionais partidos políticos e seus filiados perderam a representatividade, já não traduzem os interesses da população, senão apenas das grandes fortunas e dos grandes grupos e/ou corporações econômicas.

        É curioso como realmente tem proliferado o debate e uma já extensa bibliografia preocupada com os destinos da democracia liberal burguesa no mundo todo, ou, pelo menos, no ocidente e Eurásia!

      São muitos os riscos. Toda democracia, mesmo aquelas tradicionais, maduras e aparentemente consolidadas são sempre vulneráveis; é da essência da democracia ser, ela própria, contestada – às vezes até o limite da reversão ou subversão; toda democracia exige cuidados especiais… e contínuos.

         Hoje, algumas ameaças à democracia são bem visíveis – até com certa nitidez; umas são estruturais, outras, conjunturais. Vejamos as três mais evidentes!

         A democracia liberal burguesa é crescentemente financiada pelo dinheiro do grande capital, a ponto de alguns a qualificarem como uma plutocracia – governo dos ricos. A proximidade entre o público (Estado) e o privado (Mercado) é cada vez mais promíscua, favorecendo naturalmente a corrupção das instituições democráticas e o sistema de representação política.

       A emergência das novas tecnologias digitais, utilizadas como meio de informação, manipulação e modulação da vontade do eleitorado é outro fator que ameaça a representatividade do sistema eleitoral. Fala-se até numa “tecnopolítica” do controle, vigilância e modulação das preferências eleitorais.

        Notem que o jovem (e aparentemente bem-intencionado) proprietário do Facebook (Mark Zuckerberg) já admitiu de público que pode influenciar sim, de maneira imperceptível,  o conjunto do eleitorado: quer estimulando os eleitores a votar, quer levando-os à abstenção.

         Se é assim, se é possível levar o eleitor a votar ou deixar de votar, então um único indivíduo, e sua gigantesca organização com tendências para o monopólio da informação comercial e política, pode sugerir a votação neste ou naquele candidato, modulando a escolha do eleitor sem que este perceba, com resultados claramente funestos para o sistema representativo.

        Por fim, deve-se mencionar que nestas duas primeiras décadas do século XXI houve um claro levante da extrema-direita no mundo; um enorme avanço das ondas conservadoras que, possivelmente, se gestaram ao longo do anos 90 e emergiram, sobretudo, nas tentaculares redes sociais – onde os neodireitistas, por alguma razão, dominam e predominam sem rival.

       Essas forças extremistas, embora minoritárias, têm muito dinheiro. Controlam os meios de comunicação tradicionais e a internet. Seriam forças até legítimas se tivessem algum apreço pela democracia. O problema é que a extrema-direita não convive bem com os sistemas de freios e contrapesos estabelecidos pelas instituições democráticas; prefere as soluções politicamente autocráticas – às vezes violentas.

          É razoável concluir, portanto, que a democracia liberal burguesa está realmente em perigo – ameaçada de colapso. Lamentavelmente, alguns fatores convergem para isso. É certo que a democracia nunca teve vida fácil, mas o atual momento é de apreensão. Tudo leva a crer que o mundo dito democrático enfrentará nos próximos anos alguma turbulência… talvez até algum retrocesso. A ver…

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