As tuitadas do presidente

         IMPRESSIONA o fascínio que o presidente Jair Bolsonaro tem pelas redes sociais – o que lembra muito seu colega e ídolo Donald Trump. Pelos vistos, o presidente brasileiro não sai do Twitter – só no carnaval os jornalistas que o acompanham nessa rede contabilizaram 70 tuitadas; é muita coisa pra quem tem o que fazer.

          E o carnaval do presidente foi superagitado – no Twitter. Após dizer que o Congresso deve liberar a polícia para matar (uma polícia que mata 14 pessoas por dia; mais de cinco mil por ano!), foi bater boca com dois ícones do carnaval brasileiro (Caetano Veloso e Daniela Mercury), e ainda encontrou tempo para postar um vídeo obsceno – de um mau gosto sem exemplo.

         E o que tocou fogo no circo foi esse vídeo, onde aparecem dois homens simulando uma relação sexual com um deles urinando na cabeça do outro. Custa a crer, é mesmo inconcebível, que um chefe de Estado se preste a uma coisa dessas – fazer circular um vídeo pornográfico na internet. Sua atitude chocou todo mundo, inclusive seus apoiadores, e teve até repercussão internacional.

        Essa atitude foi tão chocante e tão fora de propósito que alguns passaram a cogitar seriamente o impeachment do presidente da república por quebra de decoro, tal como previsto no art. 9º, item 7 da Lei 1.079/50. Outros, igualmente impactados, prometiam pedir um exame de insanidade mental do ocupante do Palácio do Planalto.

       Não foi por menos que o capitão foi considerado inapto pelo Exército; e que o ex secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, saiu do governo dizendo alto e bom som: “Bolsonaro é uma pessoa louca, um perigo para o Brasil”. Com esse vídeo, o capitão interna-se definitivamente na ala psiquiátrica do governo – ao lado de Damares, Vélez, Araújo e Salles.

        De fato, dentre as muitas boçalidades que Jair Bolsonaro e família já produziram nas redes sociais, esse vídeo é a mais afrontosa. Atinge a dignidade do cargo de presidente da república e, por extensão, a dignidade de todo o povo brasileiro – o que pensarão lá fora a respeito de um povo que tem como líder um homem destemperado e… indecoroso?

         E isso sem contar que o vídeo postado pelo presidente reforça o estigma contra os homossexuais, estigmatizando também uma das festas mais populares do país, que divulga nossa cultura, movimenta nossa economia e gera divisas importantes para os combalidos cofres desta república.

          Não há, pois, como qualificar a conduta de Bolsonaro no seu Twitter oficial. Ninguém de bom senso ou de médio bom gosto daria curso a um vídeo daqueles numa rede social. É injusto dizer que isso é coisa de adolescente – creio que a maioria deles não daria trânsito a uma cena nojosa como aquela.

         É tão inacreditável a boçalidade do presidente da república que alguns chegam a dizer que essas coisas são calculadas, feitas de propósito, para “aquecer e mobilizar suas bases”. Mas não é possível que um homem desses seja tão sem-noção que não tenha a mínima capacidade, o mínimo juízo crítico, para avaliar o despropósito e a insensatez de sua conduta!

       Que Jair Bolsonaro é um desastrado, já sabíamos: azedou as relações do país com a China, causando prejuízos econômicos para a economia interna e até mesmo para os setores que o apoiam; está em vias de aniquilar a Previdência pública e os direitos trabalhistas que ainda restam; vem envenenando ainda mais a mesa dos brasileiros, com a liberação indiscriminada de agrotóxicos… Pintando e bordando, à larga!

       É loucura afirmar isso: mas seu objetivo parece ser simplesmente a destruição pela destruição; inclusive ética.

        Por conta desse despudorado vídeo pornô – e de muitas outras sandices do presidente da república-, o editorial de hoje, assinado por um dos órgãos de imprensa mais à direita na grande mídia brasileira, o jornal O Estado de S. Paulo, chama-o de “falastrão, grosseiro, desastrado e indecoroso” – absolutamente incapaz de entender seu papel de chefe de Estado e governar o país.

         Estranhei muito quando o escritor manauara Milton Hatoum, habitualmente discreto e avesso às mídias, numa entrevista concedida fora do Brasil, qualificou o presidente Jair Bolsonaro como um homem “ignorante e vulgar”. Achei que pudesse haver nessa avaliação certo exagero, algum rancor – acontece, porém, que o próprio avaliado não para de alimentar essas impressões.

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