Um espetáculo deprimente

          PRIMEIRO foi o impacto da morte de uma criança de apenas sete anos de idade, por meningite –  fato que, como tantas outras mortes de tantas outras crianças, é sempre incompreensível, dessas coisas que ultrapassam os limites da razão e deixam em aberto um “por quê?” desolador.

          Depois da tragédia, o espetáculo.

         Começou com a barbárie nas redes sociais por parte de alguns, aparentemente poucos (mas ruidosos), zombando da dor do ex-presidente Lula que acabara de perder o neto. Por mais que se tente, é impossível traduzir em palavras a torpeza daqueles que se comprazem com a morte de uma criança e o luto dos familiares dela. Inqualificável!

            Nessas horas, em que o ódio, a covardia e a estupidez humana irrompem nas redes sociais com a irracionalidade das tempestades incontroláveis, impossível não lembrar as palavras do filósofo italiano, Umberto Eco, para quem “A internet deu voz também aos imbecis”.

          (Que fique bem claro: opor-se a tais manifestações de barbárie, independentemente de ideologias, não é fazer a defesa deste ou daquele indivíduo, e é muito mais do que uma simples questão humanitária – é um Basta! civilizatório.)

       Seguiu-se então o espetáculo desnecessário e ultrajante da condução de Lula da Silva até o velório do neto – verdadeiro teatro do absurdo.

         Que teve início já com a tacanhez da decisão judicial: o avô só poderia permanecer junto a seus familiares por uma hora e meia, nem um segundo a mais; não poderia manifestar-se publicamente; e sequer acenar para as pessoas que o cumprimentassem.

           Não há como qualificar uma decisão dessas, tão desprovida de humanidade e bom senso. Não há como adjetivá-la. Recorro então a um estoque de substantivos: maldade?, insensibilidade?, infantilidade?, gratuidade?, imbecilidade? Escolham…

           E tudo culminaria com o espetáculo degradante da condução do ex-presidente sob escolta fortemente armada (só faltaram as algemas!), com seus brutamontes e fuzis, como se o conduzido fosse um ágil e perigoso bandido de 73 anos.

           No trajeto, mais estupidez: Lula é repreendido por um policial que tentou impedi-lo de acenar às pessoas que o saudavam, seguido de um outro agente da polícia que empunhava um fuzil e ostentava no peito o emblema da S.W.A.T. – polícia norte-americana. Ridículo!

      Esse espetáculo degrada menos o ex-presidente Lula e a memória de seu neto do que aos brasileiros que são obrigados a presenciar semelhante show de horrores, com direito até à degradação da Polícia Federal por requestar o símbolo de uma polícia estrangeira.

            Que tempos!

         No rosto do ex-presidente Lula havia uma clara expressão de dor e incredulidade. A dor, causada pelo golpe do destino; a incredulidade, por ter que presenciar tudo aquilo.

          Para ele, um intelectual orgânico forjado no diálogo e na ação, que conhece a vida e o poder de alto a baixo, o mais difícil certamente não é ser acusado, condenado, preso e execrado – o difícil mesmo é ver quem o acusa, condena, prende e execra – isso é o que revolta mais; retornar para o silêncio de seu cárcere deve ter sido um alívio.

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