Jair já era…

         COM menos de dois meses de governo já se percebe que a cadeira presidencial não está vazia mas está esvaziada. Jair Bolsonaro preside mas não governa; ficou completamente refém de sua própria incompetência, do fanatismo de alguns, da loucura de outros e da conspiração de muitos.

          O núcleo fanático desse governo (Damares Alves, Ernesto Araújo e Vélez Rodríguez, inspirados em Olavo de Carvalho) já virou folclore: não é mais levado a sério nem pela mídia, nem por intelectuais, universidades, classe política ou mercado – até eleitores e correligionários do capitão reconhecem a bizarrice desse grupo.

     O núcleo doido (Bolsonaro e filhos) afundou nas denúncias de corrupção e enriquecimento sem causa. Com isso, perdeu a mão do discurso moralista, bem como a aura de credibilidade/legitimidade que vinham forjando. Essa turma já foi descartada pela mesma turma que descartou os fanáticos.

           Editoriais de ontem do jornal Estadão e O Globo descartam abertamente o capitão e sua prole desvairada. Ambos sustentam a incapacidade pessoal do presidente para lidar com crises políticas e governar o país – o jornal dos Marinho chega a insinuar que o melhor mesmo seria a tomada de poder definitiva pelos militares, que já estão lá no Planalto.

          Os vazamentos começaram. Hoje, a Folha de S. Paulo, na sua matéria de capa, põe em xeque a palavra do presidente com a manchete pinçada: ÁUDIOS CONFRONTAM BOLSONARO. Um presidente sem palavra, que mente, é alguém que não tem a menor condição de governar um país em crise econômica, política e institucional como o Brasil.

        (A mesma mídia – e a mesma elite -, que pavimentou o caminho do capitão até o Palácio do Planalto é aquela que agora o quer ver longe de lá.)

       Esperava-se (não eu!) alguma coisa do ministro da Justiça, Sérgio Moro, mas ele apresentou um projeto de medidas anticrime e anticorrupção ridículo. Frustrante. Tanto que esse projeto já foi fatiado e desfigurado pelo próprio governo antes mesmo de chegar ao Congresso Nacional, onde será simplesmente dissolvido ou ignorado.

            Do superministro Paulo Guedes também se esperava algo que pudesse salvar a roça. Que nada. Ele é ministro de uma causa só: a reforma da Previdência. E seu projeto de reforma previdenciária, idêntica àquela que Pinochet enfiou goela abaixo dos chilenos, é um monstrengo impopular que terá muita dificuldade para ser aprovado na Câmara e no Senado.

          A queda do secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, que tinha a tarefa de articular as relações do governo com a classe política, revela que Bolsonaro está a pé; terá muitas dificuldades para aprovar projetos polêmicos no legislativo – ontem a Câmara derrubou seu decreto que alterava a Lei de Acesso à Informação.

          Mas, bem ou mal, a controvertida reforma da Previdência continua sendo a “bala de prata” do governo Bolsonaro. Se for aprovada no Congresso, haverá mais algum fôlego. Se ela não passar, como parece que não passará, o capitão pode pegar o quepe e… “Tchau, querido!”.

        Sem o apoio da grande mídia, sem gerar entusiasmo no mercado (Paulo Guedes passou a ser tratado como um economista comum, carente de visão pública) e sem articulação política é pouco provável que Jair Bolsonaro se garanta apenas com o twitter e com as bênçãos do bispo Edir Macedo.

        Logo, logo estaremos batendo continência pro general Mourão. Que é pior do que o Bolsonaro: é mais autoritário, é mais neoliberal e é mais forte; tem todo o respaldo da ala militar do governo, que até agora só está na moita, esperando que o estabanado capitão se enrole e tropece nas próprias pernas.

         Como se vê, e como diz o ditado, não há nada tão ruim que não possa piorar. Temo que a gente ainda vá sentir saudades do Bolsonaro. Por aí já dá pra se ter uma ideia do tamanho da enrascada, do escuro beco sem saída onde nos meteu nossa elite porca; atropelando as leis e a democracia; manipulando a opinião pública e a vontade do eleitorado.

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