Alguma coisa aconteceu

              DEVE ter acontecido alguma coisa muito grave com a democracia – no Brasil e no mundo. Porque nunca se viram tantos especialistas (filósofos, cientistas políticos, sociólogos, juristas, livres-pensadores etc.), de uma hora pra outra, tentando explicar o fracasso da chamada democracia liberal representativa – ou democracia burguesa.

              De par com essa crise, os especialistas entraram também a refletir e escrever sobre fascismo – com uma frequência perturbadora.

           Até há pouco tempo, coisa de dez anos ou nem isso, falava-se apenas por alto, en passant, sobre a crise ou esgotamento do modelo ocidental de democracia. Sobre fascismo então, não se falava nada. A não ser nos livros de História.

          Os grandes totalitarismos europeus – italiano e alemão -, surgidos em meados do século passado, pareciam algo distante, definitivamente varridos da face da terra. As democracias do pós-guerra, na Europa, na América e no mundo ocidental eram vistas como avanços definitivos, sem volta.

     Aconteceu que, de repente, começou-se a falar em “fim da democracia” e “ressurgimento do fascismo” – no Brasil e no mundo, volto a dizer. Obras e obras, aqui e acolá, têm abordado essas questões, cada vez com mais insistência, quase todas entoando um réquiem para a democracia liberal.

           De bate-pronto, dá pra citar alguns desses trabalhos mais emblemáticos, ou mais divulgados.

          Duas obras que ultimamente têm sido muito citadas (e suponho que também lidas) são: Como morrem as democracias, dos norte-americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores em Harvard; e ainda Como a democracia chega ao fim, de David Runciman, professor em Cambridge – ambas traduzidas e publicadas no Brasil.

           Em nosso país, proliferam também publicações sobre a crise e o fim da democracia representativa. Toda a semana a mídia, impressa e digital, divulga artigos, entrevistas e ensaios sobre o assunto. Acabou de sair – quentinho do forno -, pela Companhia das Letras, um livro com título mais que sugestivo, Democracia em risco?, reunindo vários ensaios, de vários autores brasileiros, sobre o tema.

            Com relação ao fascismo é a mesma coisa. Basta citar duas obras badaladíssimas nos dias atuais: o best-seller Fascismo: um alerta, da ex-secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright; e Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”, do também norte-americano Jason Stanley, professor na Universidade de Yale.

          Entre os brasileiros, não faz muito tempo que a escritora e filósofa Márcia Tiburi publicou o seu Como conversar com um fascista, que foi um sucesso de vendagem, num sinal de que a turma andava já meio cabreira com essa história rediviva do fascismo – termo que, tenho certeza, muitos brasileiros nunca haviam até então sequer pronunciado; não era do nosso vocabulário cotidiano.

             No campo da literatura de ficção, os especialistas começaram a sugerir a leitura (ou releitura) de obras distópicas e clássicas como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley; 1984, de George Orwell; e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, romances que tratam, profeticamente, do totalitarismo, da repressão política, da vigilância e do controle violento da sociedade.

             Quer dizer: parece que o clima pesou mesmo.

      Os pensadores querem entender alguns fatos que, segundo eles, ameaçam a democracia e a segurança do mundo. Não conseguem decifrar, por exemplo, por que é que os britânicos fizeram a burrada de sair da União Europeia (brexit), nem por que os norte-americanos elegeram um fanfarrão irresponsável como Donald Trump.

        Aqui no Brasil está ocorrendo algo muito semelhante: os especialistas tentam entender (e não conseguem) por que é que um homem que não serviu para ser capitão do Exército, nem foi um deputado minimamente atuante, que não tinha programa de governo e ainda fazia um discurso neofascista foi parar na presidência da república.

            A coisa é tão grave que, enquanto Trump ressuscita a Guerra-Fria pelo mundo afora (em face da China, Rússia, Irã etc.), aqui na América Latina estamos correndo o risco de entrar em guerra contra um país irmão, a Venezuela, pondo a perder a paz e o equilíbrio geopolítico da região onde, desde a estúpida Guerra do Paraguai no século 19, não havia nem sombra de conflito armado.

              Alguma coisa aconteceu, e deu muito errado!

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