Venezuela e guerra híbrida

         O CONCEITO de “Guerra Híbrida” se aplica tão rigorosamente à situação atual da Venezuela que dá até a impressão de que essa teoria foi elaborada, especificamente, para explicar o que acontece naquele país caribenho.

          Segundo o teórico das “guerras híbridas”, Andrew Koribko, os EUA vêm abdicando de fazer intervenções militares nos países-alvo de seu imperialismo por duas razões pragmáticas: primeiro, as guerras convencionais têm um custo militar, político e humanitário muito alto; segundo, é possível derrubar governos e mudar regimes sem pegar diretamente em armas.

       A nova tática do imperialismo norte-americano para intervir em Estados e trocar governos contrários ou não alinhados aos seus interesses tem duas etapas: (1) promover de fora pra dentro a chamada “revolução colorida”; (2) estimular, no interior dos países atacados, a “guerra não convencional”.

     A Síria e o Iraque são exemplos fulgurantes de que essa é, realmente, a nova modalidade bélica empregada pelo expansionismo imperialista norte-americano, motivado, sobretudo, por razões de estratégia e segurança energética.

         Mas, em que consistem as duas etapas que compõem as guerras híbridas – também chamadas de guerras não convencionais, ou guerras de quarta geração, ou ainda guerras neocorticais?, porque atuam na mente, no córtex, na vontade das pessoas.

           Vamos lá.

      As “revoluções coloridas” são fabricadas externamente por meio de campanhas publicitárias e de informação que visam disseminar ideias contra o governo “inimigo”, utilizando as mídias sociais. Essa propaganda cria a revolta popular interna (bem como o ódio) contra o governo e é sustentada até gerar a desestabilização política e econômica do regime – no caso da Venezuela, o regime chavista.

          Trata-se, portanto, de “operações psicológicas” que geram um “caos administrado”, ou seja, um “fluxo caótico” (reboot do sistema) controlado por meio das redes sociais que disseminam (e fabricam) notícias, informações e propaganda, insistentemente, contra o governo ou povo atacado pela intervenção midiático-informativa.

        O objetivo da propaganda político-psicológica é recrutar as pessoas para agirem contra o regime que se quer derrubar. A “revolução colorida” tenciona formar o que se chama “mente de colmeia”, em que as pessoas se unem e passam a agir como verdadeiro “enxame”, atacando cegamente o governo-alvo – as pessoas no “enxame” nunca sabem que estão sendo “programadas” para agir daquele jeito.

        Em seguida, são utilizados quadros internos, do próprio país-alvo, para liderar a derrubada do regime já desestabilizado pela “revolução colorida”; são os chamados “líderes velados” – no caso da Venezuela, esse papel está sendo desempenhado pelo jovem Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente do país e está agora procurando obter apoio popular para derrubar Nicolás Maduro.

            A “liderança velada” – como Juan Guaidó -, faz o “trabalho sujo” de desestabilização do governo e permite que os EUA “terceirizem a guerra”, que permaneçam de longe, fazendo uma espécie de “guerra por procuração”.

          Caso as estratégias da “revolução colorida” não funcionem, parte-se então para a “guerra não convencional”, que consiste em convocar atores internos (armados ou civis com poderes coercitivos) para derrubar o governo – papel que vem sendo exercido na Venezuela por alguns setores das Forças Armadas que, se ganharem adesão e força, poderão até fazer a guerra civil naquele país.

          Enquanto isso, os EUA realizam uma pressão econômica e militar à distância. Para tanto, contam com seus aliados na América Latina (Brasil, Colômbia, Argentina, Paraguai e outros), assim também com aliados europeus (França, Alemanha, Espanha, Reino Unido), como aconteceu quando os americanos fizeram a violenta guerra tradicional (ou de agressão) no Iraque.

        É justamente a guerra tradicional como a do Iraque, que tem alto custo militar e humanitário, que os EUA querem evitar, utilizando a “guerra híbrida” para a troca de governos não alinhados ou insubmissos à política internacional norte-americana.

            Isso está acontecendo nitidamente na Venezuela, mas aconteceu também no Brasil. Outros países latino-americanos estão sob esse mesmo “fogo-cruzado” (Equador e Bolívia). Paraguai e Honduras foram outros dois casos. Assim, é legítimo concluir que a América Latina, neste momento, está sendo alvo de “guerra híbrida” por parte do império norte-americano.

            (Um trabalho interessante para entender melhor o caso da Venezuela – e também do Brasil – é o livro de Andrew Koribko, Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes, editora Expressão Popular. Menciono essa obra apenas para fazer a devida referência e dar os créditos pelos conceitos aqui expostos.)

        Em contrapartida, o império e seus aliados (ou simpatizantes) – uns conscientes, outros, inocentes -, já cuidaram de difundir a noção de “teoria da conspiração” para desacreditar o conceito de “guerra híbrida”, dizendo que tudo isso não passa de simples paranoia, ou mero sentimento antiamericano.

         A “teoria da conspiração” é até um nome bonito, uma ideia sedutora, mas seria rematada ingenuidade supor que os EUA (e suas corporações econômicas e bélicas) não fossem reagir aos governos de esquerda que surgiram nos últimos vinte e cinco anos aqui no subcontinente latino-americano, onde estão duas das maiores reservas de petróleo do mundo – Venezuela (quarto maior produtor) e Brasil (pré-sal).

            Os que ainda assim insistem em dizer que a noção de “guerra híbrida” não passa de paranoia ou teoria conspiratória deveriam, antes de tudo, explicar por que é que Agência de Segurança Nacional estadunidense (NSA), na época do golpe, espionou o Ministério das Minas e Energias do Brasil, a Petrobras e a então presidenta Dilma Rousseff – a ponto de Barack Obama ter que pedir desculpas à presidenta e ao país.

         É o cúmulo da inocência acreditar que os EUA tenham se rendido a um mundo multipolar, com a renúncia de sua liderança na geopolítica mundial, descartando, portanto, intervenções em Estados e governos de áreas estratégicas como, por exemplo, Eurásia, Golfo Pérsico e América Latina.

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