Um país irrespirável

        O DEPUTADO fluminense Jean Wyllys (PSOL) acaba de revelar que não assumirá seu novo mandato em 1º de fevereiro próximo; revela também que se mudará do país. Segundo ele, essas decisões se devem ao fato de que está ameaçado de morte, possivelmente pelas milícias do Rio de Janeiro e seus comparsas.

         Nem seria preciso dizer – trata-se de uma questão da maior gravidade. A desistência e o autoexílio de um deputado democraticamente eleito (que já vive sob escolta), impedido de exercer seu mandato e representar seus eleitores, deixa bem claro que estamos vivendo sob uma falsa democracia – que se esvai pouco a pouco.

        Desde que a elite brasileira (em conluio com setores da elite econômico-financeira internacional) planejou e executou um golpe de Estado no país, o país desandou: no campo institucional, econômico, político e cultural.

    É mentira quando dizem que as instituições democráticas estão funcionando normalmente; é mentira que o país tem agora um novo rumo para revitalizar sua economia; é mentira que o sistema político doravante será moralizado; e, finalmente, é mentira que vivemos num pluralismo cultural e comportamental.

         O país, na verdade, passou a viver estupidamente, gratuitamente, sob ameaça.

      Estamos ameaçados pela divisão interna, que vai semeando a discórdia, o ódio e a intolerância em quase todos os campos da vida – até mesmo no seio das amizades e das famílias. Abramos os olhos antes que seja tarde: estamos insuportavelmente polarizados, divididos, rachados…

         No livro, Como as democracias morrem, um best-seller que brasileiros e brasileiras não deveriam ignorar, os autores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam, ou melhor, demonstram que “a polarização extrema é capaz de matar democracias”; e a morte delas, a erosão das democracias, é um fenômeno quase imperceptível; insidioso.

      Estamos ameaçados também, sobretudo, pelo advento de um governo autoritário, neofascista e medíocre, que faz apologia da ditadura e rende loas a torturadores; protege milícias e grupos de extermínio.

   Esse governo, num curtíssimo espaço de tempo, já demonstrou, à farta, sua incompetência e seu desprezo pelas instituições democráticas. O autoritarismo e a mediocridade, juntos, constituem uma droga, um coquetel letal para a “saúde” de qualquer democracia – foi sempre assim ao longo da história; é só conferir.

         Imaginem que estamos ameaçados até pela guerra nesta América Latina tão pacífica. Chega a ser um crime de responsabilidade (Lei nº 1.079/50, art. 5º, 3) o fato de o atual presidente brasileiro hostilizar a Venezuela, ameaçando aliar-se aos EUA em caso de uma intervenção militar no país vizinho e irmão.

       Diz essa lei que “É crime de responsabilidade contra a existência política da União cometer ato de hostilidade contra nação estrangeira, expondo a República ao perigo da guerra, ou comprometendo-lhe a neutralidade” – motivo mais que suficiente para o impeachment do atual ocupante do Planalto – está na lei.

      E há mais: podemos ficar ameaçados até pelo “terrorismo internacional” se o atual governo insistir no desvario de mudar nossa embaixada em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém – os árabes já reagiram a isso: o Egito, pela primeira vez, cancelou a visita de um chanceler brasileiro ao seu território, e a Arábia Saudita já restringiu a importação de carne do Brasil.

       A renúncia e “fuga” perfeitamente compreensíveis do deputado Jean Wyllys – na verdade, uma legítima autodefesa -, revela que o Brasil se tornou um país perigoso; sobretudo para aqueles e aquelas (como a vereadora Marielle Franco, a juíza Patrícia Acioli, os sem-terra de Alhandra na Paraíba e tantos outros e outras) que defendem a paz, o pluralismo democrático e a justiça social.

      Mas a resistência segue adiante: no lugar de Jean Wyllys assume o suplente David Miranda (PSOL-RJ), que é “preto, favelado e representante da comunidade LGBT”. Agora são dois: Wyllys lutando lá fora, para denunciar no exterior o regime de exceção em que passamos a viver aqui dentro, e Miranda lutando no Congresso – a resistência se desdobrou.

       É bom lembrar que ela, a resistência, constitui a única maneira de impedir que nossa elite antidemocrática, antipopular e entreguista, ou autoimperialista (Benjamin Moser), asfixie o que resta de nossas instituições democráticas, tornando o Brasil um “país irrespirável” – expressão que li em alguma mídia digital; referida ou criada, salvo erro, por um professor de ciência política da UnB.

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(www.avessoedireito.com)

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