Sem rumo ou inexistente?

          NESTES primeiros dias do governo Bolsonaro já se tornou lugar-comum falar de suas trapalhadas, idas e vindas, ditos e não ditos. A própria mídia de direita, que foi decisiva para colocar o capitão no Planalto, reconhece agora seu despreparo, o despreparo de sua equipe e a sua completa falta de rumo – de plano, então, nem se fala.

          Só nesta semana, os dois grandes jornais de São Paulo, órgãos que ajudaram a aplainar, decisivamente, o terreno que levou Bolsonaro ao Planalto, publicaram dois editoriais e várias matérias (sem contar os inúmeros artigos) apontando a desorientação do governo recém-empossado.

          Para se ter uma ideia da insegurança, fragilidade e despreparo desse governo trapalhão e seu amadorismo colossal, a Folha de S. Paulo contabilizou “um recuo por dia”, nas atitudes do novo governo; verdadeira montanha-russa a conduzir 204 milhões de brasileiros que não têm e menor ideia de onde essa geringonça vai parar.

           Até a mídia internacional, que há muito tempo vinha advertindo para os riscos de um governo de ultradireita no Brasil – sem plano e com discurso fortemente autoritário -, já chegou à conclusão de que Bolsonaro é um desastre; desastre que arranha a imagem do país lá fora e, pior, ameaça isolá-lo do ponto de vista comercial, estratégico e diplomático.

            Algumas áreas já se tornaram bizarras. Nos dois campos em que muitos (cada vez menos) esperam alguma coisa, algum alento – Economia e Segurança -, reina um retumbante silêncio, aumentando ainda mais o enigma de um governo que até agora só produziu folclore.

            Na área econômica, dizem que o superministro Paulo Guedes está preparando um conjunto de medidas, que seriam anunciadas brevemente. Todavia, ninguém sabe o quê. Até agora ele só fez desmentir e contradizer o seu chefe – como foi o caso, por exemplo, da “reforma da previdência”, que Paulo Guedes quer mais radical e Bolsonaro, mais suave.

          O ministro da Economia, sem nenhuma experiência no setor público, quer uma reforma “à la Chile”, ou seja, uma previdência baseada em planos privados de aposentadoria (que provocou muitos suicídios entre os idosos chilenos); já, Bolsonaro não pode fazer isso porque teria de mexer na aposentadoria dos militares – imexível.

            No campo da Justiça, da Segurança e do combate ao crime (sobretudo ao “crime do colarinho branco”), silêncio profundo: o assessor da família Bolsonaro não atende às intimações do MP; o filho de Bolsonaro também não; as denúncias contra Temer não saem do lugar; Onyx Lorenzonni não responde por caixa dois; a investigação judicial no TSE contra Bolsonaro não avança… e o ministro da Justiça… sumido, calado.

          De modo que, mesmo nessas duas áreas, a cargo de dois superministros – as duas superesperanças dos bolsonaristas -, se não reina a bagunça, se não há idas e vindas como no resto do governo, o que há é apenas silêncio, paralisia – que não deixa de ser também um sintoma de falta de rumo.

              Na edição desta semana, a revista Veja – outro órgão de mídia que deu o golpe de Estado no Brasil e pavimentou o caminho de Bolsonaro até o Planalto – publicou a montagem de uma célebre foto de Jânio Quadros, em matéria de capa, onde o ex-presidente, no ano de 1961, aparece com os pés trocados, em direções opostas – como quem não sabe para onde ir.

             Parece-me que na época a matéria jornalística ilustrada por essa foto trazia o título: “Qual o rumo?, ou coisa assim. Por isso, muitos entraram a especular sobre se a revista Veja, e logicamente a direita de que ela é porta-voz, já não estaria antevendo, ou mesmo cavando, o destino do governo Bolsonaro.

             Talvez. Bolsonaro lembra muito o governo pretensamente bonapartista e sem rumo de Jânio Quadros. O que veio depois, todo mundo sabe; o que virá agora, todo mundo teme.

             Por enquanto, o único rumo do governo foram seus “moinhos de vento”, ou seja, os ataques à esquerda e a alguns inimigos imaginários: “comunismo bolivariano”, “globalismo marxista”, “ideologia de gênero”, “marxismo cultural”, “escola esquerdizante”, isto é, tudo coisa que não existe, nem existirá – como o governo Bolsonaro.

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