Já deu errado

         HÁ quem diga que o governo Bolsonaro é imprevisível. Mas, por outro lado, há também muita gente otimista com as perspectivas desse governo, acreditando que ele pode sim dar certo, e que o país poderá mudar para melhor. Dois campos são especialmente sensíveis a esses esperançosos: a economia e a segurança.

            Esperam que os superministros, Paulo Guedes e Sérgio Moro, tirem algum coelho da cartola para retomar o crescimento econômico, para acabar com a corrupção e baixar a criminalidade. Esperemos… No entanto, é preciso cautela com tais esperanças.

          A História recente demonstrou que a austeridade neoliberal prometida por Paulo Guedes é um desastre para o alavancamento da economia. Onde ela foi aplicada, não deu certo – que o digam a Espanha, Itália, Grécia, Portugal, França, EUA, México, Chile e a nossa vizinha Argentina – nenhum desses países se recuperou do baque de 2008.

           A História mais recuada também demonstrou isso: o Plano New Deal, que levantou o capitalismo nos anos 30/40, após o crash da Bolsa de NY, e as políticas keinesianas, que levantaram a Europa do pós-guerra, são exatamente o oposto das políticas neoliberais que o novo governo adotará para enfrentar o recente crash econômico de 2008 que, aliás, decretou o fim do neoliberalismo. Mas, esperemos…

           O punitivismo midiático e autoritário de Sérgio Moro, que aposta num sistema penal de “terceira velocidade”, ou seja, numa justiça penal sem garantias – à moda Lava Jato -, é coisa que não se sustenta, não dá certo nos Estados de Direito, regidos que são pelo primado da lei, pelas franquias constitucionais e pelo princípio do devido processo legal. Esperemos, porém…

           Mas, vejamos agora as medidas concretas que foram tomadas nas primeiras horas do novo governo e que já deram errado.

      A extinção do Ministério do Trabalho, depois de quase 90 anos de existência ininterrupta, é uma evidência de que o governo que vem aí está mesmo a serviço do capital – portanto, para a classe trabalhadora, e especialmente para aqueles que trabalham na informalidade ou em situação análoga à de escravo, esse é um governo que já deu errado.

           Se o governo assume e um de seus primeiros atos é fixar o salário mínimo 4,6% abaixo do valor estabelecido pelo Congresso Nacional, fica evidente que sua política não será de valorização dos ganhos do trabalhador – portanto, para os assalariados e para quem vive de aposentadoria esse governo já deu errado.

       A extinção do Ministério da Cultura é sinal de que o novo governo não tem compromisso com as políticas civilizatórias de aprimoramento do espírito humano, e aposta num anti-intelectualismo tosco e típico dos regimes autoritários – portanto, para aqueles que esperavam superar as trevas e o atraso cultural do nosso povo, esse governo já deu errado.

           A ocupação surpreendente do Ministério da Educação pelos militares indica que a pedagogia libertadora e emancipatória, indispensável à formação crítica, humanística e encicloplédica ficará mesmo subordinada aos princípios de caserna: hierarquia, disciplina e obediência – portanto, para os pedagogos iluministas, e para as futuras gerações, esse governo já deu errado.

          Se se considerar que nas democracias o poder armado, por razões óbvias, não pode fazer política, então um governo fortemente militarizado, com militares ocupando ministérios e cargos estratégicos (muito mais que no tempo da ditadura), significa que o regime democrático cedeu passo à autocracia – portanto, para os democratas autênticos esse governo já deu errado.

          A retirada da população LGBTs das diretrizes de Direitos Humanos sinaliza, por parte do governo, que os homossexuais não serão tratados com igualdade em relação aos demais seres humanos, e que o combate à homofobia não será uma prioridade – portanto, para os gays esse governo já deu errado.

             A submissão da Funai ao ministério comandado por uma ministra (Damares) que já militou em ONG incitando ódio aos índios, e a promessa de que os índios não terão mais nem um centímetro de terras demarcadas, devendo se aculturar aos brancos, como nos tempos da colonização, significa que a população indígena caminhará mesmo para a definitiva extinção (ou extermínio) – portanto, para os índios, esse governo já deu errado.

           Quando o governo entrega aos ruralistas o poder de demarcar também as terras de quilombolas significa que o país não pretende saldar sua dívida histórica para com os descendentes dos mais de três milhões de escravos trazidos da África pelos colonizadores – portanto, para os afrodescendentes esse governo já deu errado.

            A nomeação de uma ministra conhecida como a “musa do veneno” para o Ministério da Agricultura significa que o controle dos agrotóxicos, no país que mais agrotóxico consome no mundo, ficará mesmo para as calendas – portanto, para os ambientalistas (e para todos nós que temos a mesa cada vez mais envenenada) esse governo já deu errado.

            A nomeação de um ministro que é acusado pelo MP de São Paulo de ter fraudado o Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, indica que ele não tem preocupação com o desmatamento, tampouco se preocupa com o clima e com o aquecimento global – portanto, para os ambientalistas, de novo, esse governo já deu errado.

         O alinhamento automático (cego) do governo ao imperialismo do Norte, e ao Estado sionista de Israel, revela a enorme miopia de uma política externa unipolar e submissa, que compromete seriamente nossa soberania e os nossos recursos naturais – portanto, para os nacionalistas, defensores de um país soberano e de um mundo multipolar, esse governo já deu errado.

       Quando o presidente eleito diz, no seu discurso de posse, que vai dar “respaldo jurídico” para a polícia realizar seu trabalho, significa que uma das polícias que mais matam no mundo seguirá matando sem responder juridicamente por seus atos – portanto, para os 80% de jovens negros e pobres da periferia, que são vítimas de morte violenta anualmente, esse governo já deu errado.

        Quando, nesse mesmo discurso, o presidente diz que não vai gastar mais do que arrecada, que não vai cometer a irresponsabilidade e a gastança de governos anteriores, não se iluda, ele está dizendo que vai cortar programas e serviços sociais – portanto, para os pobres esse governo já deu errado.

          Enfim, convenham, um candidato que se elegeu à Presidência da República com a retórica moralista do combate à corrupção, mas assume seu cargo investigado pelo TSE e pelo MP por atos de corrupção política – que atingem a si e sua família -, é algo que já deu muito, mas muito errado.

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