2018, o ano que não terminará?

           A EXEMPLO do que ocorreu com o ano de 1968 – que, segundo o escritor Zuenir Ventura, ainda não terminou -, parece que este 2018 também não tem data para acabar; sinto, ou melhor, pressinto que há qualquer coisa de 1968 em 2018.

          Aquele foi o ano dos protestos e das reivindicações por mais liberdade e contra os valores tradicionais que oprimiam a juventude; por isso, 1968 ficou conhecido como o ano da contracultura, cujos efeitos (conquistas e mudanças) se consolidariam em definitivo, projetando-se até hoje… como se o ano não tivesse acabado.

             Este 2018 tem qualquer coisa assim – de duradouro. Só que, aparentemente, com os sinais invertidos. Ou seja, não é o ano da “contracultura”; parece ter sido o ano da “cultura contra”, dada a onda reacionária que se levantou no mundo todo – tanto no campo político como no social e  cultural.

         Por exemplo, foi agora em 2018 que se descobriu, com o chamado “escândalo do Facebook”, aquilo que já se suspeitava: os dados dos usuários das redes sociais (Big Data) estão sendo manipulados por grupos politicamente conservadores (aliás, reacionários) a partir dos Estados Unidos.

          A manipulação é tão eficiente que a maioria dos americanos não queria eleger Trump, mas ele acabou eleito; e quando os ingleses se deram conta de que sair da União Europeia seria uma grande burrada, já era tarde. Descobrimos neste ano de 2018 que, por trás da internet, há pessoas mal-intencionadas querendo transformar este planeta numa gigantesca bolha reacionária.

          Isso veio à tona quando se constatou que os dados pessoais de 87 milhões de usuários do Facebook foram manipulados pela empresa Cambridge Analytics, dos milionários e ultradireitistas norte-americanos Robert Mercer e Steve Bannon, que os utilizaram, por exemplo, para eleger Donald Trump nos EUA e influenciar o resultado do Brexit no Reino Unido.

             Neste ano, confirmou-se também que a manipulação não é só das informações, e sim da própria mente do indivíduo. Até já se fala numa “mente de colmeia” e num “efeito-enxame” na internet, que faz com que as pessoas sejam levadas a crer numa mesma coisa, e a agir de uma mesma maneira, como um enxame de abelhas (“efeito-manada”), na direção daquilo em que passaram a acreditar – mesmo que aquilo não seja verdade.

          Fiquei chocado quando soube que alguns cientistas do mundo digital aplicam a matemática sobre os dados psicológicos dos usuários da web (psicometria), para definir perfis e algoritmos com objetivos não só comerciais, mas também políticos e culturais, manipulando, portanto, valores, vontades e desejos.

          Mais chocado fiquei ainda quando soube que, para manipular as tais “mentes de colmeia” e provocar o “efeito-enxame” (Byung-Chul Han) nos humanos, as inteligências bem-dotadas do Vale do Silício andaram estudando até o comportamento dos insetos. Observar comportamento de inseto para manipular ser humano é o fim da picada! – me senti o próprio Gregor Samsa, na Metamorfose do Kafka.

        Em 2018 despertamos de “sonos intranquilos” e percebemos que não há como controlar essas manipulações na internet; nem se sabe aonde elas vão parar. Li outro dia um livro de um desses gênios do mundo digital (Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, de Jaron Lanier, editora Intrínseca) que me deixou apavorado.

        Foi agora em 2018 que Lanier (note-se: ele é um desses cérebros digitais que ajudaram a expandir a internet no mundo) obteve a comprovação definitiva de que estamos sob vigilância contínua e constantemente estimulados por algoritmos operados por corporações muito ricas, cuja única forma de ganhar dinheiro é manipular nosso comportamento.

            Esse gênio vale-siliciano confessa que as engenhocas de manipulação – fake news, bots, trolls etc. -, que ele e sua turma viabilizaram, estão fora de controle. Porque nem mesmo eles sabem o que fazer para evitar, ou simplesmente minimizar, o impacto que, daqui pra frente, essas tecnologias digitais terão na política, na democracia, nos valores e no comportamento das pessoas. Assustador, não?

             Depois de 2018 o mundo nunca mais será o mesmo; descobrimos na prática aquilo que já suspeitávamos em teoria: a era digital está levando embora não só a privacidade como também o discernimento e a nossa autonomia cognitiva – somos levados a acreditar no inacreditável, a querer o que não quereríamos, e a fazer “no enxame digital” o que individualmente não faríamos.

             Mas, voltando a 1968. No Brasil, viviam-se dias politicamente agitados, exatamente como agora. Só que há cinquenta anos o povo protestava nas ruas contra a presença dos militares no poder; hoje, ao contrário, a maioria do eleitorado brasileiro pôs os militares de novo no centro da política.

            Em 1968, a ditadura de caserna se consolidou com a edição do famigerado AI-5, em dezembro daquele ano, e o regime ditatorial perdurou por mais de vinte anos; os militares de hoje, que voltaram ao poder pelo voto popular, ninguém sabe por quanto tempo ficarão aí – pela sede com que estão chegando ao pote, imagino que este 2018 tem tudo pra se prolongar…

             No campo cultural, dos valores (ou comportamental), o ano de 1968 ficou marcado pelas lutas por mais liberdade: liberação sexual, liberdade de pensamento e expressão, liberdade cultural, igualdade de gênero, feminismo etc.; lutas que se pretendiam permanentes e duradouras, mirando conquistas que também se imaginavam definitivas.

            Já 2018, com sinal invertido, parece seguir na direção contrária, com o levante da ultradireita: repressão de gênero, discriminação fundada na orientação sexual, criminalização do aborto, xenofobia, ataque aos direitos humanos etc. – ou seja, tudo coisa que não tem data para acabar; coisas que alguns julgam moralmente defensáveis e definitivas também.

          Notaram a quantidade de peças de teatro, exposições e obras de arte que foram censuradas em 2018 por conta de uma mentalidade conservadora que age, aberta ou subliminarmente, em nome da moral e dos bons costumes? A atriz Fernanda Torres, por exemplo, chegou a suspender uma peça de teatro por medo das “brigadas conservadoras”. Eu, hein Rosa!

             Será que, cinquenta anos depois, 2018 decretará, finalmente, o término de 1968? Quem sabe!… Este ano de 2018 andou muito esquisito, nebuloso demais – não tem cara de ano que vai acabar tão cedo, não… Seja como for, o Réveillon taí, e é data que sempre pede um (ou uma) champanhe. Então: tim-tim; feliz Ano-Novo! E que este ano novo traga realmente boas-novas – para todos, todas e todxs.

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