Escárnio

      DIZEM que a direita saiu do armário. Não tem mais vergonha de dizer que é reacionária. Que é contra a inclusão social dos pobres. Que apoia soluções políticas autoritárias. Que vota em candidatos que defendem ideias fascistas… enfim, desencantou e saiu definitivamente do armário, “sem medo de ser feliz”!

       O problema é que, além de sair do armário, a “nova direita” (seria uma versão tupiniquim da “new right” trumpista?) resolveu escarnecer de tudo: das minorias, dos adversários, das lutas sociais, do direito e… do bom senso. Como o próprio Trump, quando disse na campanha que “mulher deve ser agarrada pela xoxota” – ou, nas suas palavras: “Grab them by the pussy”.

             Essa “nova direita”, que até há pouco tempo não era levada a sério, não só perdeu a vergonha como perdeu a classe e a compostura. É brega. Atua fora do jogo democrático e ainda faz troça da democracia, escarnece de suas vítimas.

             No Brasil, por exemplo, foi um verdadeiro escárnio o fato de um juiz usar seu cargo para tirar da disputa presidencial o candidato preferido pelo povo e, imediatamente, pular para dentro do governo que ajudou a eleger, virando Ministro da Justiça sem observar uma “quarentena” ética para assumir cargo no Executivo – num Estado de Direito (decente) isso jamais aconteceria.

        É um escárnio que o candidato Jair Bolsonaro tenha se elegido com o discurso anticorrupção (e antissistema) e, mesmo assim, seja o primeiro presidente da república, desde a redemocratização, a tomar posse sob investigação judicial eleitoral por corrupção política, abuso de poder econômico e sonegação de informações sobre suas contas de campanha.

           É outro escárnio que um motorista/amigo/assessor da família do presidente, intimado pelo Ministério Público para esclarecer a movimentação de R$ 1,2 milhões em benefício dos Bolsonaro, não tenha comparecido ao órgão apurador por duas vezes e ninguém cogite de sua “condução coercitiva” nem pergunte “Cadê o Queiroz!” – Lula da Silva fora conduzido coercitivamente até a Polícia Federal sem sequer ter sido intimado.

           (Por sinal, esse 1,2 mi da família Bolsonaro é valor bem mais alto do que aquele dispendido com a reforma – se é que reforma houve! – do reles apartamento que levou Lula à cadeia!)

           Agora, escárnio mesmo foi o que fez ontem a futura primeira-dama, beneficiária direta dos depósitos suspeitos do tal motorista-assessor: apareceu publicamente usando uma camiseta com a frase dita pela juíza de Curitiba quando advertiu Lula, em seu último interrogatório: “Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”.

          O quê, no fundo, revela a frase estampada na camiseta da esposa do presidente? Várias coisas.

            Primeiro, escancara a absoluta sintonia entre a política bolsonarista de ultradireita e a atuação reacionária do Poder Judiciário. O Brasil foi vítima de lawfare, ou seja, a lei e o Judiciário foram utilizados com finalidades políticas. Mas, a “nova direita” não tem a menor preocupação em esconder isso; ao contrário, faz questão de demonstrá-lo, escarnecendo do povo brasileiro.

            Segundo, a frase da camiseta dá um recado e intimida as autoridades que querem ouvir o tal Queiroz, uma espécie de faz-tudo dos Bolsonaro, e saber por que é que esse homem depositou inexplicáveis 24 mil reais na conta da própria primeira-dama. Terceiro, há na camiseta da mulher do presidente vindouro um recado a todo o povo brasileiro: “Se mexerem comigo, teremos problema”.

            A frase exibida na tal camiseta (que não é casual nem é inocente – ao contrário, é uma camiseta-outdoor!), para além de ser arrogante e provocativa, revela uma óbvia tática de enfrentamento, tipicamente trumpista. Ou seja: atacar para não ser atacado; ameaçar para não ser ameaçado; acusar para não ter que se defender.

            O recado vai também para os eleitores de Bolsonaro que, ingenuamente, supunham ser possível tirar o presidente do poder, caso ele “saísse fora da linha”; caso se envolvesse em corrupção. Pois a corrupção já está aí – antes mesmo da posse. Quem é que vai lá agora tirar o homem da presidência, que está rodeado de ministros militares como nem os presidentes da ditadura ousaram estar?

            Alguém se habilita?

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