Ditadura, sim e não

            A MAIS nova do governo vindouro é o “desconvite” feito aos chefes de Estado de Cuba e Venezuela para que não compareçam à posse de Jair Bolsonaro – agiu bem o novo (des)governo, porque é muito possível que os representantes desses países, mesmo se convidados, não comparecessem a essa posse.

      É que o presidente eleito – numa flagrante demonstração de ignorância e incompetência sobre o protocolo e a dinâmica das relações internacionais – já menosprezou e ameaçou tantos esses dois países que, possivelmente, nenhum deles se animaria a participar dos festejos em que, sabem eles, não são bem-vindos.

           Tanto é verdade que o chanceler da Venezuela, após o “desconvite” feito pelo governo brasileiro, enviou um  ofício dizendo que jamais assistiria à posse de um presidente intolerante, que representa o fascismo e atua contra a integração latino-americana e caribenha – esse ofício da Venezuela devia estar na gaveta há muito tempo!

           O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, desde sua indicação, já disse tanta besteira, tanta asneira sobre “globalismo marxista, “marxismo cultural”, “espectro comunista” que ameaça o mundo, que era mesmo um contrassenso convidar representantes de países com governos inspirados no socialismo.

            Até aí, tudo bem; tudo normal. Um presidente ultradireitista, que ameaça até a fazer guerra contra a Venezuela (se assim os EUA mandarem!) não iria mesmo convidar o presidente do país que considera um inimigo, que deve ser combatido até mesmo por meio das armas.

         Mas, o curioso é que o presidente Bolsonaro justificou o não convite ao chefe de Estado cubano (Miguel Díaz-Canel) sob o argumento de que Cuba é uma ditadura. Disse o presidente de 57 milhões de brasileiros: “Ditadura, pô, não podemos admitir!”.

         É isso mesmo: Jair Bolsonaro é contra a ditadura. Seus eleitores podem dormir tranquilos. A apologia que ele fez dos regimes ditatoriais durante toda a sua campanha, não era verdade – era de mentirinha. Ele é um democrata; um destemido defensor das liberdades públicas.

            Incoerência do presidente eleito? Estelionato eleitoral? Ou apenas um ato-falho, sem maiores consequências?

             A verdade é que a concepção de ditadura do Bolsonaro só se aplica aos regimes de  esquerda – ditadura de direita pode. É coerente. Não há, portanto, na sua declaração, nenhum “estelionato eleitoral” – Jair Bolsonaro é autêntico; é ele mesmo.

             Sendo assim, os esquerdistas e democratas em geral que se cuidem, que ponham as barbas de molho… vem turbulência por aí. A julgar pelo que dizem alguns ministros indicados e, sobretudo, pelo que diz a “família Bolsonaro”, devemos passar por uma espécie de “macartismo à brasileira” nos próximos anos – verdadeira “caça às bruxas”.

         Os alvos principais já estão eleitos: partidos de esquerda, classe trabalhadora, minorias discriminadas, movimentos sociais, índios, democratas e esquerdistas em geral, classe artística, intelectuais e professores – secundários e universitários; pelo que se desenha, esses não terão vida fácil sob o bolsonarismo.

      A concepção de ditadura defendida por Jair Bolsonaro é muito peculiar; consequentemente, sua noção de democracia também é. Portanto, o Brasil e seu regime democrático, prefigurado na Constituição de 1988, ficam agora ao sabor (e à coerência) da mentalidade bolsonarista – e tudo endossado pelas urnas.

              Como a coerência não é exatamente o forte desse governo que se avizinha – tantas foram as idas e vindas, as contradições, os mentidos e desmentidos do chefe eleito e sua selecionada galera – que a alternativa poderá ser mesmo o caos; aliás, bem nos moldes do caótico governo Trump, que parece ser o paradigma a orientar a lógica (ou antilógica) bolsonária.

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