A “fritura” já começou

             “SINISTRO, muito sinistro!”. Esse bordão, criado por um antigo narrador esportivo (Januário de Oliveira), ajusta-se perfeitamente ao contexto em que o presidente eleito está sendo diplomado hoje, 10 de dezembro – ironicamente, na data em que se comemora a Declaração Universal dos Direitos Humanos que ele tanto despreza.

         Jair Messias Bolsonaro será diplomado logo mais em meio a um baita escândalo financeiro que, se a mídia brasileira fosse imparcial – e se o eleito fosse algum esquerdista -, seria mais que suficiente para impedi-lo de subir a rampa do Palácio no próximo 1º de Janeiro, com a faixa verde-amarela no peito.

        O relatório do COAF, comprovando que o assessor, amigo e motorista da família Bolsonaro, um PM com ganhos ao redor de 8 mil reais, movimentou R$ 1,2 milhões em apenas um ano – e nesse ano fez depósito até na conta da mulher do presidente eleito – é um pepino e tanto, especialmente pra quem se elegeu com o discurso moralista anticorrupção.

           Certamente que o eleito será diplomado, será empossado – mas ninguém garante que seu governo vai até o fim. Sua reeleição então, nem se fala: parece coisa já descartada pela elite que deu o golpe e o pôs na Presidência da República apenas para barrar o candidato da esquerda – nada mais.

               O serviço que a elite esperava de Bolsonaro ele já fez. Portanto, a partir de agora é peça descartável. Esse escândalo do COAF, surgido às vésperas da diplomação e da posse, é muito sintomático – não dá pra dizer que é coisa do PT, como o frágil e inseguro Jair Bolsonaro vem tentando dizer.

               O “vazamento” do relatório do COAF é coisa de dentro do palácio. E lembra bem os métodos de Sérgio Moro, quando mandava e desmandava na Lava Jato. Dentro do governo montado por Jair Bolsonaro há muito “Cavalo de Troia”, ou, como dizemos por aqui: há muito “presente de grego”.

            Dois núcleos internos representam, especialmente, verdadeira ameaça ao futuro político do presidente eleito: o núcleo dos superministros (os indemissíveis Paulo Guedes e Sérgio Moro) e o dos militares – que nunca viram com bons olhos o capitão expulso do Exército; na gíria militar, chamavam-no de “bunda-suja”.

             Ousaria dizer que o sucessor de Jair Bolsonaro sairá de um desses dois núcleos. O primeiro tem o aval do mercado financeiro e dos “interesses econômicos internacionais”; o segundo tem as armas.

             Ambos os grupos sabem que Bolsonaro é um homem intelectualmente limitado e inseguro. Sua fragilidade intelectual, política e até psicológica é óbvia – ele não consegue se expressar claramente, e, quando o faz, expressa ideias sem conteúdo ou desastrosas; até mesmo boa parte de seu eleitorado desprezava suas ideias, ou torcia para que elas não passassem de simples bravatas – coisa de bufão.

              Alguns dias atrás, um dos filhos do presidente eleito foi ter às redes sociais para dizer que a morte de seu pai era desejada por pessoas que estavam ao redor dele. A afirmação é sinistra e ambígua – pode ser que o rapaz se referisse à morte física (em decorrência da facada) ou à “morte” política do pai.

           É cedo pra outro impeachment – a direita sabe disso; e não há motivo para tanta pressa – o jogo tá ganho. Mas daqui há algum tempo, quando as investigações do COAF estiverem concluídas, a ideia de um impeachment já não será assim tão extravagante; e a não reeleição do presidente é coisa que está, sim, nos cálculos da elite golpista.

             Tudo isso são especulações, admito. Mas há motivos (e até fatos) bastantes para tal. Aguardemos, porém! Mas não se esqueçam: o golpismo é um movimento, comporta vários golpes no âmbito dele – por exemplo, o famigerado AI 5, que completará 50 anos no próximo dia 13, foi um “golpe dentro do golpe” – Bolsonaro que se cuide!

              Mas são especulações. O que parece muito claro neste momento, com a divulgação desse sinistro (e ponha sinistro nisso) relatório do COAF, fragilizando ainda mais o já frágil presidente eleito (até seu eleitorado parece estar pulando fora do barco!), é que antes de o governo começar já começou o processo de “fritura” do capitão… por enquanto, em fogo brando; no tal banho-maria.

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