A cara do governo

          É ESQUISITO… Mesmo com todo o ministério já definido; com a equipe de transição trabalhando a pleno vapor; a menos de 48 horas da diplomação do presidente eleito ainda não é possível definir a cara desse governo Bolsonaro. “O que será que vem por aí”?, estão se perguntando os analistas.

           No entanto, há algumas coisas que já são bem visíveis; mas, mesmo essas, ninguém sabe como funcionarão na prática, depois da posse.

           Por exemplo, é visível que há uma militarização do futuro governo e da política. Bolsonaro trouxe os militares para o centro do poder. Ele mesmo e seu vice são militares da reserva. Entre capitães, coronéis, generais e almirantes já são uma dezena de militares no alto escalão do governo. É muito coturno – numa democracia, por razões óbvias, o poder armado não pode fazer política.

           No campo dos direitos, o presidente eleito pôs na pasta da Justiça um ex-juiz que não dá nem bola pra lei e pra Constituição, ou seja, não está nem aí com o tal Estado de Direito e o princípio da legalidade.

          Sinceramente, não conheço outro juiz que haja praticado (impunemente) tantas violações legais e constitucionais como esse Sérgio Moro! E agora ainda diz que vai imprimir à sua pasta a feição da Lava Jato. Está enchendo o Ministério da Justiça de delegados e militares – o segundo homem na hierarquia da pasta é um delegado de polícia (secretário-executivo); o outro, é um general (Secretário de Segurança).

            Não é muito milico e muita polícia, não? Essa turma tá se preparando pra quê – pra guerra ou pra governar o país?

           Na esfera econômica, com o “Chicago boy” Paulo Guedes, já dá pra ver também o que vem por aí: mais neoliberalismo. Quer dizer: ajuste fiscal (leia-se: achatamento de salários, corte de benefícios sociais, corte de investimentos na área social e infraestrutura), reforma da previdência, privatizações e “venda” (ou entrega) das nossas riquezas naturais para manter o sacrossanto superávit primário – que faz a festa do rentismo.

          No campo da política externa, o novo governo nem tomou posse e já tá tomando peteleco dos parceiros internacionais do Brasil. Ouviu poucas e boas da China e do Mundo Árabe, especificamente do Egito. Essa história de mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém ainda vai render… Mas vai render é prejuízo: prejuízo comercial e pra segurança do país, que pode entrar gratuitamente na “rota do terrorismo” islâmico.

           Nesse terreno da diplomacia parece que a coisa vai de mal a pior. O novo chanceler (Ernesto Araújo), que nunca chefiou uma embaixada sequer, diz que sua grande missão no ministério será combater o “marxismo cultural” que, segundo ele, dominou o globalismo contemporâneo. É mole?

            Um cara pra dizer uma coisa dessas, que a globalização capitalista é dominada pelo marxismo, tem que ter muita coragem! Ou viver em Marte. Não é à toa que lá no Itamaraty andam chamando o futuro chanceler de “ministro tarja-preta”. Mas ele disse que pretende resolver tudo isso, todo esse tal “marxismo cultural” que demonizou o “globalismo”, com muita “fé em Cristo”.

         Na seara dos Direitos Humanos… mais Cristo. O presidente eleito nomeou uma mulher (pastora) que diz que mulher tem que ficar em casa, e que os cristãos têm agora a missão de tomar o poder estatal. Segundo ela, a igreja (suponho que seja sua igreja evangélica!) tem o dever de “ocupar o Estado”.

             Maquiavel virou no túmulo e a Bíblia virou do avesso. Ou Cristo não disse “Dai e César o que é de César, e a Deus o que é de Deus? A separação entre Igreja e Estado, ou seja, a laicidade é um dos pilares do Estado Moderno. Retornar a um modelo de Estado pré-Maquiavel, como esse proposto pela futura ministra, é retornar à Idade Média – isso não é nem retrocesso; é obscurantismo puro.

           Por essas e outras já dá pra ver o tamanho do imbroglio em que se meteu o Brasil. Parece que a cara do novo governo será um curioso mix de “militarismo” com “autoritarismo policialesco” e “neoliberalismo” com “fundamentalismo religioso”… Uma mixórdia obscura; com claro toque de mediocridade.

      Mas, pelo menos – dizem alguns -, o novo governo tem (ou tinha) a cara da anticorrupção; da honestidade.

        O diabo é que agora o COAF descobriu que, em 2016, um ex-assessor da família Bolsonaro fez 176 saques em dinheiro, numa suspeitíssima movimentação bancária de R$ 1,2 milhão. E mais: fez depósito (R$ 24 mil) até na conta da mulher de Jair Bolsonaro. Esse ex-assessor é um Policial Militar com ganhos em torno de 8 mil reais por mês; porém, num só ano movimentou um milhão e duzentos mil reais – de onde veio esse dinheiro?

        Ninguém fala, ninguém explica. Os filhos do presidente eleito zarparam das redes sociais. O próprio presidente esboçou uma desculpa esfarrapada numa entrevista que concedeu a um site mega-ultrarreacionário, O Antagonista; e o xerifão Sérgio Moro, encarregado de averiguar esses casos, se fechou em copas; não respondeu a nenhum questionamento da imprensa sobre o relatório do COAF.

      Com tal silêncio, e o conveniente “sumiço” dos espetaculosos porta-vozes da moralidade – que antes falavam tanto e agora não falam nada sobre esse verdadeiro “batom na cueca” dos Bolsonaro -, parece que vai surgindo uma nova cara do governo que vem por aí: cara de paisagem… ou cara de pau.

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