A cara da campanha

           NATURAL que a esta altura, com todo seu ministério formado, o novo governo já tenha uma “cara”. E tem. Mas são tantas as idas e vindas, os mentidos e desmentidos, as afirmações e contra-afirmações do presidente eleito e sua equipe de transição que os analistas políticos, aturdidos, não ousam fazer quaisquer previsões ou predições – o jeito é esperar.

          Mas, qualquer análise que se queira fazer a respeito do novo governo, parece-me, deve começar pela “cara” de sua campanha. Deve levar em conta que Jair Bolsonaro não é um caso isolado, e que, portanto, sua vitória em outubro último pode ser melhor entendida dentro de um quadro mais amplo, como reflexo do fenômeno que atualmente movimenta a geopolítica em escala global.

           Pelo menos duas coisas confirmam esta última tese: uma, Jair Bolsonaro mimetiza em tudo seu colega Donald Trump, como se ambos fizessem parte de um mesmo “partido global”, mirando os mesmos objetivos ; duas, Jair Bolsonaro (tal como Trump) utilizou as tecnologias digitais para espalhar mentiras e pós-verdades que resultaram na sua eleição.

          O jornal Folha de S. Paulo – o de maior circulação no país -, demonstrou numa reportagem investigativa (indicando nome das empresas que agiram fraudulentamente) que a campanha de Jair Bolsonaro utilizou dados comprados para impulsionar mensagens em massa, por meio do WhatsApp, contra seu adversário Fernando Haddad e contra o PT.

          Essas mensagens eram impulsionadas diretamente por empresas contratadas pela campanha de Bolsonaro e hoje investigadas pelo TSE; por grupos formados com essa finalidade; por grupos de amigos e familiares; e também por meio de robôs – o que configura uso de recursos financeiros não declarados, abuso do poder econômico pelo candidato.

         A mesma reportagem revelou também que um grupo de empresários investiu 12 milhões de reais, em caixa dois, para pagar as empresas que impulsionavam essas mensagens destinadas a promover o candidato eleito e atacar (até moralmente) seu adversário, com mentiras e pós-verdades.

       (Há vídeos circulando na internet em que esses empresários – exatamente os mencionados pela reportagem da Folha e investigados pelo TSE – admitindo a necessidade de investir mais dinheiro na reta final da campanha de Bolsonaro para pagar os “bulk services”, impulsionamentos em massa.)

         Agora, numa nova reportagem publicada no último domingo, a Folha revela outra fraude praticada pela empresa Yacows, contratada pela AM4 que fez a campanha de Bolsonaro: para impulsionar as mensagens ilegais em massa foram utilizados perfis falsos, com CPFs de idosos que nem tinham conhecimento de que estavam sendo “usados” para esse fim. Crime.

           E o que é que diz o candidato eleito, beneficiado por essas fraudes e pelo caixa dois dos empresários que financiaram os impulsionamentos ilegais? Diz que não tem nada com isso; diz que não tem controle sobre as doações e “ajudas espontâneas” de pessoas e empresários que se simpatizaram com sua campanha.

           Isso tudo é motivo bastante para que o TSE impeça a diplomação do candidato eleito fraudulentamente, cuja campanha está sub judice? É. O TSE fará isso? Não. E por quê? Porque não.

       Alguém poderá dizer que os impulsionamentos em massa, disseminando mentiras como a do “kit gay”; absurdos como as mamadeiras em formato de pênis, que Haddad distribuiria nas creches; pós-verdades como a do Foro de São Paulo, que iria implantar o comunismo no Brasil não tiveram peso na eleição e o que elegeu Bolsonaro foi só o antipetismo mesmo.

            Sei não se o antipetismo foi a causa da derrota do PT – um mês antes da eleição Lula era o favorito para vencê-la, até mesmo no primeiro turno, segundo todas as pesquisas. Cadê, então, o antipetismo? Ele existe, é claro. E é forte. Mas não foi ele que derrotou o PT nestas eleições – quando muito, o antipetismo (e a alegada “desilusão” com o PT) terá sido uma boa desculpa pra votar num candidato extremista e excêntrico como o Bolsonaro.

            Por meio das redes sociais (Bolsonaro tinha só 8 segundos na propaganda eleitoral pela TV) o candidato eleito soube manipular a vontade do eleitorado, despertando “sentimentos” em lugar de “discernimentos” – desta vez despertou duas emoções poderosíssimas: o medo e o ódio; exatamente aqueles que também definiram as votações do Brexit no Reino Unido e a eleição de Trump nos EUA.

           Desse modo, se se quiser desvelar a “cara” do governo Bolsonaro, seus mistérios e vaivéns, é preciso antes entender a “cara” de sua campanha: baseada na desinformação, na fraude, nas chamadas fake news e na pós-verdade. Somente assim se poderá entender como é que um legítimo representante do sistema passou por ser um candidato antissistema. Sinais destes tempos!

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