Cadê a tolerância-zero?

            A RETÓRICA do candidato Jair Bolsonaro martelou com insistência raivosa sobre o tema da corrupção. Com isso, iludiu muita gente (e até gente de boa-fé!), em especial o eleitorado antipetista e boa parte da classe média conservadora que cultiva um moralismo baboso, meio difuso, politicamente manipulável.

         O candidato vitorioso prometeu tolerância-zero para com os corruptos em geral, especialmente para os que ele chamava de “petralhas”; e o eleitorado do candidato raivoso embarcou nessa cruzada sacrossanta e moralista.

            Mas, depois das eleições, começaram a acontecer coisas estranhas. A primeira delas é que o ministro da Casa Civil indicado por Bolsonaro – Onyx Lorenzoni – é um político investigado pela prática do crime de caixa dois e até já confessou que cometeu mesmo esse crime.

           Depois, o candidato eleito põe no Ministério da Agricultura uma deputada, Tereza Cristina, que, segundo a imprensa, já recebeu doação de réu acusado de matar um líder indígena e é investigada por ter concedido incentivos fiscais à JBS, sua parceira pecuária, quando era Secretária de Estado no Mato Grosso do Sul.

            Agora, vem o futuro ministro da Saúde, deputado Luiz Henrique Mandetta, que está sendo investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois quando era Secretário da Saúde em Campo Grande.

            O superministro da Fazenda, Paulo Guedes, que concentra tantas funções a ponto de ser chamado de “Posto Ipiranga do Bolsonaro”, é investigado pelo Ministério Público Federal por suspeita de fraude em fundos de pensão estatais.

              O outro superministro, Sérgio Moro, também não chegou com a ficha muito limpa, não. Respondia a várias investigações no Conselho Nacional de Justiça e pediu exoneração rapidinho pra escapar desses pepinos no CNJ – tem partido pedindo que sua exoneração seja anulada.

            O próprio Bolsonaro é réu numa ação de investigação eleitoral pela prática de abuso de poder econômico e caixa dois, na reta final de sua campanha (recebeu 12 milhões ilegais), e, além disso, sonegou declarações de dinheiro recebido na campanha – tanto que suas contas estão sendo investigadas pelo TSE.

          Não vou dizer que essa turma aí seja culpada e que, portanto, merece condenação sumária e implacável. É preciso apurar tudo direitinho, como manda o devido processo legal. Mas pra quem pregava a tolerância-zero contra os corruptos, convenhamos, não é um bom começo: era de se esperar uma turma mais “limpinha”, não era não?

            E duas coisas nesse campo chamam a atenção: primeiro, quando era juiz, Sérgio Moro dizia que o crime de caixa dois era o mais nocivo; nomeado ministro, passou a dizer que esse crime pode até ser perdoado. Segundo, numa reunião em Brasília esta semana, com deputados de seu partido, Bolsonaro disse que “questão ideológica” é mais grave que  “corrupção”.

          Ué, cadê a tolerância-zero com a corrupção?, como acreditaram (e ainda acreditam) os eleitores do Bolsonaro. Isso não tá me cheirando bem. Gostaria até de ouvir a opinião dos verde-amarelos lava jato, que bateram tanta panela e fizeram tanta passeata por esse país afora pedindo cadeia, e até pena de morte, pra tudo quanto era corrupto.

          Mas quer saber mesmo o que é a tal da tolerância-zero do Bolsonaro? É a intolerância política e ideológica. A manchete de capa do Estadão de ontem era esta: “LULA, DILMA, MANTEGA E PALOCCI VIRAM RÉUS POR ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA”. É a nova fase da Lava Jato contra o que chamam de “Quadrilhão do PT” – esse é o primeiro passo para pôr a sigla na ilegalidade.

        Isso, sim, é tolerância-zero, o resto é conversa pra boi dormir, e dormir bem caladinho. Porque se alguém reclamar vai sentir logo o peso da caneta de um superxerife fora da lei, no Ministério da Justiça, e o tranco dos coturnos, que nesse novo governo invadiram cargos e ministérios que deveriam ser ocupados por civis – muita gente ainda não se deu conta disso.

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