Vai pra Cuba!

           O FUTURO ocupante do Palácio do Planalto, desde sua eleição há vinte dias, já disse e desdisse tanta coisa sobre o que fará ou deixará de fazer como presidente da república que não dá pra se ter nenhuma ideia do quê e como será seu governo a partir de 1º de janeiro próximo.

            Com suas diatribes verbais, já arrumou confusão com o mundo árabe; já tomou pito da China; já foi advertido pela Europa; já assustou aos parceiros comerciais do Mercosul; já contradisse vários de seus futuros ministros… enfim, já provou que não tem mesmo um plano de governo… e parece não ter rumo – nem prumo.

            Além de lhe faltar um plano (dá até a impressão de que Bolsonaro não esperava chegar à presidência da república!), negou-se a debater suas ideias, ou aquilo que poderia ser o esboço de um plano ou de suas reais intenções no governo.

          As idas e vindas, esses vaivéns do presidente (que até já viraram piada), estão revelando que, com ou sem plano, Bolsonaro talvez não reúna o equilíbrio e as condições necessárias para governar um país tão complexo como o nosso. É muito amadorismo. Lembremos que o grande maestro Tom Jobim já dizia que o Brasil não é para principiantes.

            As gabolices e contradições do presidente amontoam-se.

        Por exemplo (e só pra citar um caso bizarro!), ele passou sua carreira inteirinha, incluindo a campanha à presidência, atacando os gays, dizendo que gay deveria ser tratado na porrada – chegou a afirmar que seria incapaz de amar um filho homossexual -, e agora afirma que poderia ter um ministro gay, dizendo que até ele próprio (Bolsonaro) poderia vir a ser gay, no futuro.

            Como se vê, não vale a pena ficar cuidando das presepadas do presidente eleito. Mas elas, pelo menos, servem para uma coisa: revelam o temperamento errático, instável do futuro comandante. O problema é que, com isso, ficamos reféns de um mandatário boquirroto que parece não ter controle nem sobre si mesmo.

          Se fosse só bravata e fanfarronice, ainda tava bom. A questão é que suas bravatas, a partir de agora, terão consequências – uma coisa é ser um deputado falastrão; outra coisa, bem diferente, é ser um governante que não sabe o que diz, ou que diz o que não deve.

             Veja o caso do programa Mais Médicos.

          Com uma tuitada (talvez imitando o jeito Trump de governar), o futuro presidente mandou embora 8.332 médicos cubanos, que ocupavam mais da metade das vagas do programa (18.240 vagas) em 2.885 municípios. Com isso, vai deixar muitos desses municípios (1.575) sem um único médico.

            Os cubanos, que se dispuseram a trabalhar nas mais longínquas localidades do país, em condições difíceis e até inóspitas, já atenderam, desde 2013, 28 milhões de pessoas carentes que dependiam de seus serviços. Pessoas literalmente abandonadas, como as populações indígenas, que nunca tinham visto um médico na frente e que passaram a recebê-los em casa (ou nas aldeias), como “médicos de família”.

           Os doutores brasileiros, a maioria recém-formados no Sudeste, não têm interesse em ocupar essas vagas deixadas pelos cubanos. Tanto é verdade que o programa tem hoje 2.000 vagas ociosas; vagas que não atraíram médico nenhum – ninguém topou cuidar de índio e de pobre em regiões distantes, quase inacessíveis, onde não apenas as condições de trabalho são ruins como também as próprias condições de vida.

           Para resolver esse problema social, que o presidente eleito criou gratuitamente (e por razões ideológicas) antes mesmo de começar a governar, o futuro governante terá de investir muito dinheiro; terá de pagar muito bem aos médicos brasileiros para que eles se disponham a fazer o que os cubanos faziam.

          Uma vez que não disporá de recursos suficientes, e não terá um tostão a mais para investir nesse programa – pois o próprio Bolsonaro votou a favor da PEC do congelamento que impede o investimento na saúde pelos próximos 20 anos – o jeito é dizer aos pobres e aos índios aquilo que o presidente e seus correligionários costumam dizer aos opositores: “Vai pra Cuba!”.

          Esse bordão é velho. Bolsonaro entrou levianamente nessa onda. Vira e mexe tem sempre alguém mandando o outro pra Cuba; quando não, mandam pra Venezuela. Esse besteirol na boca do povão até que passa. Mas na fala de um presidente da república revela desconhecimento e desrespeito preocupantes em matéria de relações e cooperação internacional – revela uma puerilidade incompatível com o cargo.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado . Guardar link permanente.

4 respostas para Vai pra Cuba!

  1. José Roberto disse:

    Eu estava concordando com o texto até onde começou a tratar do “Mais Médicos”, que bem poderia se chamar “Forma de mandar dinheiro do contribuinte brasileiro à Ilha da Fantasia dos Castro”. O Dr. Machado, como bom esquerdista que sempre foi, omitiu do seu texto que os “médicos” trabalham em regime de escravidão, que o governo cubano fica com 70% do dinheiro, que as famílias são mantidas reféns, que os médicos não podem pedir asilo, que há feitores fiscalizando os profissionais (recebem mais que os médicos) e milhares de outros absurdos, que só são admitidos pois se trata de Cuba. Cuba, a linda ilha caribenha, onde as pessoas passam fome, onde não tem sabonete, pasta de dente, canetas, papel higiênico e onde os opositores são sumariamente fuzilados (sonho do lulopetismo). Logicamente, ao contrário do que a esquerda brasileira escreve, a medicina de Cuba não é a melhor do mundo. Está parada no tempo, assim como todo o resto da ilha, nos anos 50 do século 20. Mas tudo isso não vem ao caso. Coitadinhos dos brasileiros, que não podem mais escravizar os cubanos do programa petista, coitadinhos dos Castro, que vão deixar de receber os bilhões enviados pelo contribuinte (do Sudeste brasileiro). Não precisaram nem pagar o Porto de Mariel e agora ainda vão ficar sem o dinheiro do trabalho dos outros.

    • José Roberto disse:

      agora vi “aguardando moderação”, percebi que o Dr. não vai publicar a resposta.Democracia só para quem pensa como eu.

      • Prezado José Roberto,
        Sinceramente, não há no blog Avesso e Direito nenhum comentário seu aguardando moderação.
        O blog publica tudo. Exceto comentários vazios (sem conteúdo); comentários com conteúdos racistas ou preconceituosos; que contenham ataques pessoais ou expressos em linguagem chula, grosseira, agressiva… Esses são, sim, sumariamente descartados. Mas acredito que não tenha sido o seu caso. Deve ter havido algum problema na emissão ou na recepção de sua mensagem.
        Seja como for, agradeço a leitura e a intervenção no blog. Terei sempre o maior prazer em publicar e responder, com todo respeito, aos seus questionamentos.

        Att. Antônio Alberto Machado

    • Caro José Roberto,
      Vamos aos seus pontos: 1) acho que a preocupação dos brasileiros não é com o “regime de escravidão” dos médicos cubanos. Se fosse, não precisariam ir tão longe: muitos médicos brasileiros no Brasil também deixam 70% do valor de suas consultas nas mãos da Unimed; os bolivianos são escravizados à luz do dia na indústria têxtil em São Paulo; o Brasil já reconheceu perante OIT que tem trabalho escravo e até já elaborou uma “lista suja” dos empregadores que escravizam pessoas (se os brasileiros realmente quisessem combater o trabalho escravo, poderiam começar por aí, não precisariam ir até à “linda ilha caribenha” – o problema é ideológico, o problema é Cuba); 2. Cuba exporta seus serviços médicos para mais de 60 países, inclusive países da Europa, que são rigorosos com relação ao trabalho escravo – muito mais do que o Brasil; 3. Não dá pra entender o regime de trabalho dos médicos cubanos omitindo que eles se formam sem pagar um tostão, que recebem bolsa-permanência para estudar, que a medicina lá não é uma profissão liberal (mercantilista), e que esse serviço é uma maneira de o Estado cubano arrecadar dinheiro para continuar formando médicos e prestando assistência (gratuita) à saúde de toda sua população; 4. Realmente, você tem razão, a economia de Cuba está debilitada (como a do Panamá, que é um país capitalista), mas não dá pra entender o estrangulamento da economia cubana omitindo o embargo econômico (e criminoso) imposto à ilha pelos Estados Unidos há sessenta anos – por razões puramente ideológicas; 5. Por fim, até a OMS já declarou que o “sistema de saúde” e a “medicina familiar” de Cuba são modelos para o mundo.
      Agradeço a intervenção no Blog e conto com novos comentários.

      Att. Antônio Alberto Machado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s