Acabaram-se as dúvidas

        AGORA, com a declaração expressa do general Comandante do Exército numa entrevista à Folha de S. Paulo, na edição de ontem, creio que não haverá mais dúvida de que a “democracia” brasileira está mesmo sob “tutela militar” e, quem sabe, transitando para um regime de ditadura aberta e declarada – sem disfarces.

           Ao confessar que pressionou o Supremo Tribunal Federal para que essa Corte não concedesse habeas corpus ao ex-presidente Lula, o general Eduardo Villas-Boas disse que, no dia do julgamento, o “Exército estava no limite”; para conter as tropas, teve então de se manifestar pelo Twitter, que a Rede Globo divulgou no Jornal Nacional, sugerindo aos juízes supremos que Lula não deveria ser solto.

         Isso quer dizer que o Comandante do Exército vergou a Constituição Federal e vergou também a mais alta Corte de Justiça do país, incumbida de velar pelo respeito e efetividade da Lex Magna. Ou seja: a Lei Maior e a Corte Suprema foram mesmo submetidas às Forças Armadas.

             Se o general admite sua intervenção deliberada num julgamento constitucional, de competência da Suprema Corte, é porque estamos realmente sob uma tácita “intervenção militar” – mais claro impossível.

           E o general – que está em fim de carreira -, disse mais. Disse que a eleição de Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, poderá levar a uma “politização dos quartéis”. Quer dizer: os militares voltaram mesmo à política, e dessa vez foi por meio do voto popular, além da própria Constituição que, no seu art. 142, escondia desde 1988 o militarismo resiliente que nunca saiu de cena – a nossa democracia é uma obra inacabada.

          É isso aí: grupos autointitulados “movimentos sociais” (MBL, Vem pra Rua etc.), financiados por organizações estrangeiras, classe média alienada, e os reacionários neofascistas de sempre, tanto pediram, tanto bateram panela invadindo nossas avenidas com suas patriotices verde-amarelas que os militares se animaram – estão aí de novo, declaradamente.

            Acabaram-se as ilusões (para quem as tinha!). Que fazer?, as democracias acabam mesmo; elas morrem. O problema é que a nossa “acabou antes de começar”, ou seja, foi interrompida antes que a obra estivesse completada.

            Mas o pior de tudo é que um general dá uma declaração dessas (que no Uruguai e no Chile levaria, como levou, dois militares de alta patente à cadeia) e a mídia brasileira silencia vergonhadamente: será medo?, adesão? ou conivência? Pelo histórico recente, esta última parece ser a hipótese mais provável.

             E o Supremo Tribunal Federal, o que dirá sobre essa declaração humilhante, que o inferioriza e enfraquece? O que dirá, em especial, a ministra Rosa Weber, que, anteriormente se dizia contra a prisão em segunda instância mas, no caso do Lula, após a pressão do general, mudou escandalosamente seu entendimento e votou contra o habeas corpus do ex-presidente?

         Mais uma vez, – como das outras vezes -, o grande pretexto para o golpe (que começou como “midiático-parlamentar-empresarial” e vai agora se transformando num golpe “militar-institucional”) é a eterna corrupção; especificamente a propalada “corrupção do PT”.

           A mídia sabe como manipular a opinião pública utilizando o mote da corrupção: já fez isso quando levou Getúlio Vargas ao suicídio e quando derrubou o governo constitucional de João Goulart. Ela sabe que a ingenuidade da grande massa (inclusive daquela parte que se diz mais letrada e mais bem informada) é facilmente manipulável com o discurso moralista anticorrupção.

           Porque ele é um discurso que fala ao senso comum: até uma criança sabe que “quem roubou deve pagar”. O que uma criança não sabe – nem as massas que se deixam manipular pelo discurso moralista -, é distinguir entre corrupção do sistema político e corrupção individual; tampouco sabem o que foi e como funcionou a corrupção na ditadura militar.

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