Padrão baixo-clero?

           OS ANALISTAS andam claramente perdidos, tateando no escuro, no que se refere ao governo Bolsonaro que vem por aí. Com menos de dois meses para a posse do presidente eleito, ninguém tem pistas sobre os caminhos que o país tomará no campo da macroeconomia, da política externa, da educação, da saúde, e até da democracia institucional.

       Nem poderia ser diferente: Bolsonaro elegeu-se sem um programa claro de governo, apresentou como plano um conjunto de medidas genéricas (umas não factíveis, outras  pirotécnicas!) e negou-se a debater suas ideias. Nas poucas vezes em que fora entrevistado por jornalistas especializados, nada esclareceu, ou disse o que um candidato não deveria dizer.

             Pelo que ele sempre andou dizendo por aí também não dá pra adivinhar como será seu governo: ao longo de sua carreira política, e mesmo como candidato, não poderia haver ninguém mais “politicamente incorreto” que Bolsonaro: investia contra mulheres, gays, quilombolas, negros, índios, pobres… só falava em matar bandidos e eliminar seus opositores – até contra as instituições democráticas ele investia, falando em fechar o Congresso Nacional, enaltecendo torturadores e glorificando a ditadura militar .

          Mesmo depois de eleito, portanto, como futuro presidente, seguiu estabanado: disse que uma de suas primeiras medidas seria mudar a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, imitando Trump, ou talvez cumprindo algum compromisso com a comunidade neopentecostal que ajudou (e muito) a elegê-lo – não custa lembrar que 71% dos evangélicos votaram em Bolsonaro.

     Os árabes, imediatamente, lembraram ao presidente eleito que são grandes responsáveis pelo superávit da nossa balança comercial, muito mais do que Israel. O Egito foi mais longe: cancelou uma visita do chanceler brasileiro, Aloysio Nunes, sinalizando que o Brasil deveria manter sua histórica neutralidade diante do conflito árabe-israelense, e parece que o presidente eleito já voltou atrás nesse delírio da embaixada.

          Os filhos do presidente também não ajudaram: há dois anos se deixaram fotografar com camisetas do exército israrelense e do Mossad, a polícia política de Israel. Pra que meter a mão nesse vespeiro? Ninguém sabe. Será apenas para mimetizar o Trump?, será para agradar à comunidade evangélica?, será por que faz parte de um alinhamento, até bélico, com os EUA e Israrel, será por quê?…

       O presidente eleito disse que sairia do Acordo de Paris (já havia dito que deixaria também a ONU) e que, portanto, não se comprometeria com a redução de gases que provocam o efeito estufa, imitando Trump. Os filhos do presidente, de novo, também não ajudaram. Um deles se deixou fotografar nos EUA em meio à neve e depois declarou que o aquecimento global é uma farsa.

          Os europeus lembraram ao presidente que têm uma grande preocupação com a paz e o aquecimento global – parece que o presidente eleito também já voltou atrás no que diz respieto à sua intenção de romper com o Acordo de Paris e saída da ONU.

      Bolsonaro prometeu fundir os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente, para agradar a seus apoiadores, mas a Europa lembrou-lhe que ficaria muito preocupada com a qualidade da carne que compra do Brasil, e que essa medida poderia afetar as relações comerciais com o país. Diante disso, o presidente já voltou atrás mais uma vez, rapidinho, rapidinho.

          O superministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes (aquele que chamam de Posto Ipiranga), chegou dizendo que iria “privatizar tudo” (isso não existe em lugar nenhum do mundo), inclusive a Previdência Social. Mas o próprio presidente eleito já o desdisse alegando que não dá pra privatizar setores estratégicos, e que a previdência precisa respeitar os mais velhos.

           O outro superministro, Sérgio Moro, que até ontem era o paladino da moralidade, e que sempre condenou o caixa dois como um dos crimes mais nocivos, bastou chegar ao governo Bolsonaro pra começar a enaltecer político um réu-confesso de praticar caixa dois (Onix Lorenzoni, deputado da “bancada da bala”), dizendo até que ele réu pediu desculpas e, portanto, deveria ser simplesmente, sumariamente desculpado.

          O futuro presidente, prometeu cumprir a Constituição (algum presidente, alguma vez, prometeu não cumpri-la?), mas já na sua primeira entrevista coletiva barrou três dos maiores órgãos de imprensa (Folha, Estadão e O Globo), bem como a imprensa internacional (pra quê?), investindo gratuitamente contra a tão propalada “liberdade de informação”, que dizem ser o esteio constitucional das democracias de massas.

         Sobre política econômica, nem um piu. O presidente já disse que não entende nada desse assunto. O tal do Paulo Guedes, seu futuro ministro da Economia, é uma esfinge. Na academia é tido como um investidor competente e oportunista; no governo será o quê? Ninguém sabe. Já falou e desfalou tanta coisa que os analistas até desistiram de emitir pareceres e previsões; nem palpites ousam dar.

          O mandatário eleito e seu vice são militares; há vários militares no alto escalão de seu governo, e até em ministério, mas vem o comandante do Exército, confessando que pressionou o STF pela manutenção de Lula na cadeia, e diz hoje nos jornais que “Bolsonaro não é a volta dos militares” – e a volta do quê, então?

          Durma-se com um barulho desses! Ninguém consegue entender tanta contradição; tanto vaivém. Casuísmo e amadorismo estonteantes. Se bobear, não só os analistas andam perdidos, mas também o próprio presidente eleito.

         Enfim, estamos no escuro. Há um ano Jair Bolsonaro era um simples deputado falastrão, com discurso radical de extrema direita, integrante do chamado baixo clero da Câmara Federal. Hoje, chega à presidência da república, acusado e processado por abuso de poder econômico e fake news, fazendo uma barulheira dessas, causando todo esse ruído desnecessário – será o jeito baixo-clero de governar?

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