Sem pudor

           O JUIZ da desastrosa operação Lava Jato acaba de dar um golpe nessa operação e outro na magistratura. Ao aceitar o convite do presidente eleito para ocupar o superministério da Justiça, o juiz Sérgio Moro confirma duas coisas: (1) o alvo dele era apenas o Lula; (2) para tanto, usou a magistratura, e o poder coercitivo de seu cargo, para fazer política – sem a imparcialidade que se espera dos juízes.

          Não há mais como esconder essa realidade. O próprio juiz, para manter um certo verniz de imparcialidade, sempre disse que nunca entraria para a política. Voltou atrás, abriu o jogo e revelou de que lado está e sempre esteve. Pelo menos agora ele deixa de ser um “militante togado” e vai fazer política abertamente – sem suspeitas nem ambiguidades.

           (Se a Lava Jato já era polêmica, com essa nomeação de Sérgio Moro para ministro, ou melhor, para superministro, dá-se o golpe de morte na legitimidade da operação – nem Bolsonaro devia nomear o juiz, nem o juiz deveria aceitar a nomeação.)

          A retórica do combate à corrupção era só retórica mesmo; simples pretexto para derrubar uma presidenta legitimamente eleita e pôr na cadeia o maior líder popular do país sem que, nem a presidenta nem o líder petista, houvessem cometido qualquer crime suficientemente comprovado.

            Notem como o objetivo da Lava Jato não era o combate à corrupção: o juiz dessa operação acaba de aceitar o convite para ser ministro de um presidente que acaba de eleger-se cometendo crime de corrupção. Praticou abuso de poder recebendo 12 milhões de reais não declarados (caixa dois) de empresários que financiaram sua campanha ilegal no aplicativo WhatsApp.

             Chega a ser irônico, burlesco, ou melhor, um verdadeiro escárnio para com o povo brasileiro: o juiz que tanto dizia combater a corrupção aceita ser ministro de um presidente cujo mandato está sub judice (no TSE) exatamente pela prática do crime de corrupção – não há como negar as contradições desse juiz.

            Mas não é só. O juiz da Lava Jato, a partir de agora, será colega, correligionário, do réu-confesso Onix Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, que, perante autoridades (com vídeo gravado circulando na internet) confessou ter recebido 100 mil reais ilegalmente, em caixa dois, para sua campanha de deputado.

           Doravante, portanto, atuarão lado a lado, ombro a ombro, no mesmo governo, o homem que confessa a prática do crime de caixa dois e o juiz que condenava aqueles que praticavam crime de caixa dois. É burlesco ou não é? Não há como explicar isso a não ser pela “cegueira” daqueles que querem, que insistem em ser enganados.

            Ao assumir o superministério de Bolsonaro, o juiz da Lava Jato confirma o que já era óbvio: passou esse tempo todo praticando o chamado “lawfare”, ou seja, fazendo a aplicação da lei com objetivos políticos, portanto, de forma partidarizada, sem nenhuma imparcialidade, que é um dos pilares do “devido processo legal”.

         Lembremos que, esse juiz, em parceria com a Rede Globo, já havia divulgado ilegalmente uma conversa telefônica sigilosa, entre Lula e Dilma, que acabou precipitando o impeachment desta última. Sua atuação, nesse caso, além de ilegal (ele próprio pediu desculpas ao STF pelo vazamento do áudio), foi claramente política, uma prática que nada tem a ver com as funções de um juiz.

             Por ironia também, o impeachment desencadeado pela atuação irregular desse juiz parcial acabou levando ao Palácio do Planalto outro acusado de corrupção: Michel Temer, que teve duas denúncias criminais rejeitadas pela Câmara dos Deputados mediante compra de votos, verbas e cargos concedidos a deputados que impediram a instauração do processo-crime contra o presidente golpista.

        Agora mesmo, nesta semana da eleição que levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, bem na boca da urna, o juiz da Lava Jato, por sua própria vontade, de ofício, sem nenhuma necessidade, autorizou a divulgação da delação premiada feita por Antonio Palocci em que o ex-ministro, sem prova nem documento, acusa Lula de ter praticado corrupção.

            E isso tudo sem contar que o juiz da Lava Jato, hoje ministro de Bolsonaro, tirou Lula da disputa presidencial condenando-o, sem prova nenhuma, pela prática de “atos indeterminados” de corrupção na Petrobras. (E antes que me venham com aquele blá-blá-blá do “Lula ladrão”, é preciso que se diga que foi o próprio juiz, numa entrevista concedida à Folha de S. Paulo, quem disse que não havia “prova direta” contra Lula.)

            Não é estranho que o mesmo homem que tirou da corrida presidencial aquele que seria o favorito para vencer as eleições passe agora a prestar serviços ao que venceu o pleito eleitoral? Esperava-se que os golpistas tivessem um mínimo de preocupação em disfarçar o golpismo. Mas não. As coisas são feitas às claras, provavelmente aproveitando-se daquela “cegueira” dos que não querem ver – dizem que essa é a pior cegueira.

          Diante desses disparastes todos, cabe perguntar: quando é que cessarão os golpes contra o Estado de Direito e contra a democracia brasileira? Quando é que os brasileiros enxergarão tudo isso?

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para Sem pudor

  1. Aline Grandisoli Konig disse:

    Ah Machado… Eu já perdi a esperança…
    Saudades de vc Professor.
    Grande abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s